Um Espírita na Umbanda

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(3 minutos – Rafael Martins) Confesso de “texto aberto” ter tido muitas reservas em trazer este singelo depoimento.

Uma, porque percebia uma desconcertante ignorância minha sobre a Umbanda, o que me impunha um cabresto aqui, na hora de soltar o verbo.

Duas, por conta de preconceitos mais meus do que seus.

Que se fale então sobre o pouco que se sabe, após ter superado essa preocupação infantil com antigas ideias.

Aos fatos.

Trabalho de preparação muito demorado. Aos menos para os padrões dos “mesa branca de Kardec”.

Leituras – inclusive do Evangelho Segundo o Espiritismo – Comentários feitos pelos médiuns, Cânticos e, sim, Rituais. Algumas defumações envolviam plantinhas que nunca tinha ouvido o nome. Você já cheirou Benjoim? Muito tempo até os que conduziam as atividades perceberem o ambiente como preparado.

Eu orava só com um olho fechado para poder reparar o que acontecia com o outro.

A sessão era separada em dois momentos. Inicialmente, vinha o passe um pouco mais efusivo do que aquele recorrente na Doutrina Espírita. Nada indiscreto, apenas manobras manuais mais elaboradas. Nesse momento, ainda poderia rolar uma conversinha rápida com a entidade responsável por essa depuração preliminar dos que seriam atendidos. O segundo momento já envolvia um bate-papo com os espíritos que se manifestassem, o que poderia ser bastante longo. Tipo uma hora.

Enquanto crianças, idosos e grávidas iam sendo recebidos para o primeiro momento, meus pensamentos começaram a enveredar insistentemente para: “repara em tudo na intenção”. A propósito, qualquer control+f ou l na obra de Kardec e você encontrará diversas menções ressaltando a importância dessa intenção, muitas vezes indevassável.

Não teve jeito. Chegou a minha vez.

” É isso aí. Reparando na intenção, antes de qualquer coisa, você vai poder perceber que nosso objetivo aqui é o Bem. E isso vai lhe deixar mais à vontade. Seu compromisso é com os Mesa Branca de Kardec, mas será sempre muito bem-vindo aqui.” Essa foi a minha recepção. Ou pelo menos o que eu decodifiquei dela.

Foi um voadora moral dada com todo jeitinho desse mundo e do outro também. O tal de vai pra lá, vai pra cá, levanta, senta, sai de costas, beija ali o altar. Nada disso fazia parte do cerne, do propósito maior daquelas horas de trabalho ao próximo.

Depois de ter ido outras cinco vezes e aprendido um pouco melhor o dialeto ali empregado, consigo expressar com maior segurança o zelo que as entidades traziam quando do atendimento fraterno. Não fiz testes formais de qualquer natureza. Apenas observei tudo como um experimento natural. Como o local era bem acolhedor – entenda-se pequenininho – pude ouvir conversas dos outros, meio sem querer querendo mesmo.

Os espíritos não respondiam a tudo. Inclusive pontuavam quando sabiam menos algum ponto do que o interpelante. Exploravam muito mais os argumentos de ordem moral do que intelectual, sempre com a maior simplicidade. Analisavam questões relevantes, não gastando a prosa com temas frívolos. Conversavam o tempo que fosse para tentar levar ânimo, conforto e consolo aos que traziam desafios. Nunca testemunhei abordagens do tipo “eu resolvo os seus problemas”. Postavam-se como amigos e emocionavam-se juntos com os “pacientes”.

Com o tempo, de fato fui me sentido bem naquele ambiente. Energia boa, como a que já experimentei em algumas missas e cultos evangélicos.

Vendo aqui o que a Doutrina Espírita nos traz sobre isso – apenas um naco – lembro da questão 108 de O Livro dos Espíritos, que esclarece sobre a possibilidade de haver espíritos mais evoluídos moralmente do que intelectualmente.

ESPÍRITOS BENÉVOLOS – Sua qualidade dominante é a bondade; gostam de prestar serviços aos homens e de os proteger; mas o seu saber é limitado: seu progresso realizou-se mais no sentido moral que no intelectual.

Isso poderia de certa forma ser corroborado pelo que se aventa no item 373-a, em que Kardec comenta: “A superioridade moral não está sempre na razão da superioridade intelectual… (vide também questão 751 da mesma obra”

Não sei até que ponto seria o caso de extrair uma interpretação determinística da evolução intelectual preceder a moral, como parece retratado na questão abaixo transcrita

780. O progresso moral segue sempre o progresso intelectual?

É a sua consequência, mas não o segue sempre imediatamente. (Ver itens 192-365).

Fui levado pela esposa e amigos em comum. Hoje, posso dizer ter feitos amigos “cavalos” e “pretos-velho”, “índios” e outros nomes que eu não vou lembrar, embora guarde o sentimento. Amizades nascidas na boa intenção de disseminar o Bem, ainda que por diversas formas. Por que não?

Como diria o Missionário de Assis: “Pregue o Evangelho em todo lugar. Se necessário, use palavras”.

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