O Amor dá Sinal

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(3 minutos – Rafael Martins) Adoro trabalhar com jovens [0], ainda mais quando diante de ocasiões que envolvam a Doutrina Espírita. As perguntas provocativas, as objeções apaixonadas, o abismo para a empatia, uma inquietação ilógica, a energia contagiante, além de um silêncio indecifrável, figuram entre os ingredientes que têm me mantido longe de trabalhos mais abnegados, como aqueles desempenhados pelo pessoal da Limpeza e da Cozinha.

Nesse ritmo, já tem um tempo que atuo pela equipe de Estudos [1] do Encontro-ME, espécie de retiro religioso feito durante o carnaval em Brasília.

Importa aqui compartilhar que é um evento que vai da manhã de sábado até a tarde de terça, com a galera dormindo no local do encontro. Nesse intervalo, os jovens e os trabalhadores estão “desmaterializados”. Ou seja, larga-se tudo que dificulte a imersão proposta.

Nesse processo, a matéria que se desprende com maior pesar é o bendito do celular.

Não duvido que seja o item mais perigoso para desconectar o jovem das boas vibrações, visto que há nessa fonte – notadamente na época do carnaval – muita coisa vibrando em outra sintonia.

Óbvio que há os jovens que saberiam como utilizar tal aparelho, optando, por exemplo, por restringirem um hipotético uso durante o evento para disseminar e perenizar o sentimento de vivenciar um Encontro-ME, por meio de fotos e vídeos nas Redes Sociais.

A questão é que a percepção sobre a outra parcela de obviedade – a dos jovens que entrariam numa espiral de memes inofensivos, na melhor das hipóteses – é a prevalente. Daí, uma decisão de mal menor.

Entretanto, talvez mais por comodismo do que por um espírito revolucionário, eu continuo a carregar o meu celular durante todo o evento.

Geralmente, mostro-o à turma tão cedo quanto possível para me antecipar aos potenciais delatores, espíritos ainda irresignados com a desmaterialização. Destaco minha opção de uso como relógio e a importância disso na dinâmica das aulas [2]. Por fim, comento uma ou outra palavra na tentativa de domar semblantes mais suspeitos. Raras vezes não falo nada. Só quando sinto que não precisaria.

Pois bem. No curso das atividades de Estudos, muito mais do que ficar professando tecnicidades propícias para guerra de egos entre adultos, busca-se incitar o jovem a reflexões que o conduzam a comprometer-se com mudanças, dentro do contexto de cada indivíduo e perante os desafios que a experiência na carne oferece. E como oferece.

O mote é sempre esse: conciliar a pedagogia espírita com um grande punhado de boa vontade para tentar construir algo dentro do tema condutor de cada ano. Em 2020, tivemos “Bem-aventurados os Aflitos”, assunto concentrado no capítulo V do Evangelho Segundo o Espiritismo e, que a meu ver, traz uma das abordagens que inspiram maior cuidado quando da aplicação prática.

Num dos momentos de maior sensibilidade e já no encerramento da almejada “construção”, fomos conduzidos no âmbito de uma dinâmica a simplesmente transmitir amor, olhando-nos nas janelinhas da alma.

Não demorou muito e lágrimas embalaram depoimentos super delicados, mostrando que por vezes a minha maior contribuição como Facilitador é ficar calado, sentir e ouvir.

Após a prece final, proliferaram abraços entre todos, o que ocorreu ainda durante uma certa catarse coletiva.

Momentos depois, eu já pensava em voltar logo para a minha família, dando abraços finais meio desatento, quando um jovem, aos prantos, me recolocou naquele turbilhão emotivo dizendo: “tio, eu preciso ligar para alguém”.

Como continuei atônito para não dizer desconfiado, a argumentação apostou na transparência: “por favor, eu preciso falar com minha mãe agora”. Nesse instante, todas as palavras do depoimento que ele compartilhara minutos antes se apossaram da minha mente. E ficaram por lá, até ver o que acontecia.

Não foi difícil perceber a importância de se aproveitar aquele embalo. No lugar dele, com aquela história de vida, eu roubaria qualquer celular para falar com a Dona Olga, minha mãe. Ele ainda pediu…

Depois de doze anos, finalmente pude dar aula no anfiteatro bacana que tem no colégio, no qual geralmente fazemos o evento. Interessante que esse mesmo ambiente trazia uma densa cortina, para esconder os bastidores de qualquer coisa que se encenasse ali.

Dessa vez, por trás daquele véu se sentiu a realidade. Ninguém viu. Nem eu. Uma mãe pôde ser surpreendida com o compromisso do filho em lutar pelo que os unia.

O Amor toca de qualquer lugar. Basta sintonizar.

[0] conceito não necessariamente amarrado a data de nascimento.

[1] não sou muito preocupado em contabilizar essas coisas, mas recordo bem que tive um início desafiador a minha “preguiça moral”. Bastava uma dorzinha de barriga ou um peido perambulando por qualquer parte do meu corpo para eu voltar ao conforto e imobilidade do lar.

[2] Mais recentemente, já trazia guardado na manga o argumento de dois filhos pequenos.

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