Duas pedrinhas e o Covid

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(Rafael Martins – 3 minutos) Há cenários que eu dificilmente imaginaria que me trariam por aqui. E isso, por um lado, é bom. Chato seria abordar assuntos mecanicamente previsíveis. Mas convenhamos que o tal do Covid deu uma apelada nesse quesito surpresa.

Entre a infinidade de temas ligados a qualquer assunto que impacte todo o planeta ao mesmo tempo, escolhi aqui tratar das curvas. Isso, no plural.

A primeira e mais famosa, diz respeito a subida e descida, tal qual um carrinho de montanha-russa, no número de infectados que precisem de internação para um dado período de tempo [1]. Fala-se em empurrar o clímax dessa vertigem o mais pra frente possível, o que poderia implicar um pico mais acanhado, além de permitir que outras variáveis médicas – infraestrutura hospitalar e tratamento – se fortalecessem. A suavidade dessas duras curvas é didaticamente exposta nesse texto claríssimo do portal deviante. Em síntese, a “integral” de áreas de gráficos retratam objetivamente o número de mortes.

Ocorre que a possibilidade aventada acima é influenciada por outra curva, a da pressão econômica, que embora traga um caráter mais difuso e complexo no que se refere à quantificação do prejuízo, certamente possui a sua letalidade intrínseca.

Duas curvas que digladiam entre si ao lidar com as mortes “aceitáveis”. São como duas pedrinhas que se arremessa na superfície de um lago e geram ondas que se colidem ali na frente.

Não se pode permanecer confinado para sempre. Da mesma forma, o passado tem indicado que seria negligência assassina continuar como se nada tivesse acontecido e empilhar corpos dentro de um darwnismo moralmente comprometedor. Em todo o caso, seres humanos vão morrer. O que fazer?

O ponto é encontrar um meio termo. Solidarizo-me aos tomadores de decisão nesse momento. Os de boa-fé…

É curioso observar a quantidade de respostas prontas vindas de quem não tem esse nível de pele em jogo.

Muitos desses líderes sabem que independente do desfecho, sofrerão pesadas críticas porque a guerra contra a pandemia provavelmente trará efeitos colaterais de grande magnitude sob qualquer cenário.

Esse choque entre o imperativo categórico kantiano e o pensamento utilitarista foi posto com muito cuidado num vídeo que recebi e que repisava o famoso caso do bondinho e o cruel detalhe de ter que se afastar o burocrata de uma encarada mais contundente do problema se quisermos aumentara a chance de uma resolução pragmática, utilitarista.

Acontece que a simplicidade do dilema do bondinho é escalada em várias ordens de grandeza quando diante desse caso da pandemia. Eis o porquê.

Tudo é ainda mais complicado visto que os exemplos dados no caso do bondinho são lineares. Na realidade, é como se o tempo passando deixasse aumentar o número de pessoas nos trilhos numa crescente exponencial, pressionada pela outra curva econômica, que também é longe de ser previsível ou linear. E mais ainda, há altas chances de ser um jogo de N rodadas caso a decisão de liberar, de suprimir o confinamento seja precipitada ou desconcertada com outros países. Se puxar a alavanca muito cedo, volta pro pesadelo.

Decisões difíceis.

Aposto aqui no ponto de que uma dose cavalar de solidariedade arrefeceria a pressão da curva econômica, permitindo cuidar das vidas inicialmente mais tangíveis, a dos doentes.

Quanto mais ineficiente nossa ajuda mútua, quanto maior nossa preocupação estéril em simplesmente apontar erros alheios, maior a pressão para esse intercâmbio insensível entre hospitalizados e desempregados.

No que toca à ética espírita, penso ser interessante pontuar que não seria algo necessariamente contido no universalismo kantiano. Há um detalhe interessante que gira em torno da intenção do sujeito.

“Em tudo vede a intenção” é um postulado espírita [2].

Pode ser muito bem que nessa matemática macabra entre asfixiados e famintos haja uma intenção de mal menor por parte de um tomador de decisão. Algo que ele verdadeiramente entenda justo e aceitaria se fosse o impactado pela medida. Temos como examinar isso? Não. Ainda assim, prevejo um desperdício monumental de energia pelos juízes gratuitos desses atos.

Empatia tornaria o peso desse martelo mais leve.

Antes disso, que cada um faça a sua parte. Quem puder, fique em casa, ajude quem não pode ficar, auxilie quem não tem casa.

Moramos todos no mesmo lugar. Temos um inimigo comum e muito evoluído, pois que não traz preconceito e faz de todos nós vetores da doença. Temos ainda outro inimigo mordaz. Aquele mais preocupado em dar pedradas…

[1] se considerado todo o período e o número de infectados tenderia a ser o maior possível dentro da dinâmica de qualquer vírus numa dada população, exceção feita caso o alongamento do tempo fosse agraciado com uma vacina, por exemplo.

[2] Entre várias fontes que poderia citar, a mais cabível é essa de São Luís do Capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

“Se um homem se expõe a um perigo iminente para salvar a vida a um de seus semelhantes, sabendo de antemão que sucumbirá, pode o seu ato ser considerado suicídio?

Desde que no ato não entre a intenção de buscar a morte, não há suicídio, e sim, apenas, devotamento e abnegação, embora também haja a certeza de que morrerá. Mas quem pode ter essa certeza?” [3]

Para um estudo mais aprofundado, vide questões 655, 658, 670, 747, 949, 951 e 954 de O Livro dos Espíritos.

[3] Não se apoquente. O comentário do Espírito não se encerra com uma interrogação. Eu que interrompi o recorte na esperança de atiçar sua curiosidade.

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