Disciplina Positiva, Sistema 2 e Espiritismo

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(3 minutos – Rafael) Tentando ser um pai melhor, acabo por me deparar com assuntos intrigantes. Temas em que eu não sei nada para ser mais sincero. A situação fica mais interessante quando arrisco misturar essas novidades com alguns insights vindos da Doutrina Espírita.

Como neófito desse lance de Disciplina Positiva [1], entendi que um dos lances é desafiar os pais a pensar um pouco mais e ofertar à criança uma opção mais instrutiva que um castigo, o qual deixa brechas para associações não tão pedagógicas.

Por exemplo, o filhote está lá comendo e, do nada, arremessa a comida no chão. Reagir a isso com “vá para o castigo”, “encare a parede”, ou qualquer coisa semelhante, segundo esse lance da Jane Nelsen, não contribuiria tanto para a formação da cria.

Em vez disso, uma reação que agregaria valor seria:

“Eita filho! Agora a casa está suja. Precisamos limpar. Vá pegar o paninho ali”. Embute-se o valor da casa limpa, bem cuidada, organizada no meio do processo educacional e não se impõe o ônus de decifrar o “como essa parede branca vai me ensinar alguma coisa?” ao pequeno.

Almoço de domingo e no meio de um monte de risadas e brincadeiras gostosas, o pequeno bacuri solta uma escarrada no rosto da vovó. Isso mesmo. Com catarrão e tudo. E agora?

A Disciplina Positiva orientaria a não sentenciar instantaneamente o menor com alguma aflição física ou moral pelo ato tosco. Tosco para adultos. É segurar o ímpeto e buscar uma alternativa que não fragilize a conexão afetiva entre pais e filhos.

De bate-pronto, os progenitores deveriam esforçar-se para não perder o timing em explicar que tal ato magoou a vovó, levando a criança a observar o semblante da matriarca, colhendo ela mesma, evidências de que se trata de algo errado, de que não é legal sujar os outros. E o principal: incentivar o cuspidor inconsciente a reparar o ato, pedindo desculpa, limpando o rosto da vovó e tentando trazer sorrisos à mãe da mãe.

Em síntese, do pouco que vi sobre o assunto, tem-se um foco em priorizar o aprendizado pelo amor, mantendo a conexão afetiva especialmente quando o filho instiga uma reação mais impensada de nossa parte [2], tipo mandá-lo para um castigo que, na verdade, apenas serve para distanciar o pai do desafio e sem resolver o problema.

Claro, para tudo há limites, e agora é uma pitada minha no assunto. Em alguma hora, sob alguma circunstância, o aprendizado seria pela via dolorosa mesmo. Fico lembrando da minha infância em que eu ateava fogo em tudo, fugia de casa, matava muitos animais, entre outras particularidades [3]. Seria um teste super interessante para averiguar os eventuais pontos negativos ou limitações da Disciplina Positiva.

Levando para a Doutrina Espírita, para a temática da Lei de Causa e Efeito, ainda vemos uma preponderância na pedagogia da Dor sobre o Amor. Falo da percepção nos Centros Espíritas, no Movimento Espírita Brasileiro como um todo.

A maioria quer curar dores, quer resolver problemas, encontra uma religião por conta de uma mega treta.

A minoria busca religar-se com Deus, ou melhor conviver com Suas Leis, esforçando-se por, antes de tudo, introjetar que absolutamente 100% do que nos acontece é justo e perfeito para o próximo passo evolutivo.

Corroborando tal impressão, o Nobel de Economia e Psicólogo, Daniel Kanheman já evidenciou na sua obra que reagimos mais as perdas do que aos ganhos, se considerada uma mesma magnitude.

Um exemplo simplório para reflexão: Em geral, perder 100 reais gera uma frustração mais intensa do que a alegria em encontrar cem pila na rua [4].

Um exemplo mais intenso, também para reflexão: perder um filho geraria uma oportunidade de aprendizado evolutivo maior do que receber um dos braços da médica. [5].

Um exemplo intermediário: perder o emprego tem uma maior propensão a facilitar sua ida num culto, numa igreja, numa palestra espírita, do que ganhar um emprego.

O assunto é digno de um Nobel porque vários países têm redesenhado políticas públicas baseando-se no ferramental da pesquisa desse senhor. O nome bonitinho é Teoria da Perspectiva.

Bem, isso que o laureado pesquisador comprovou deu-se olhando para o passado, levantando dados com gente forjada em gerações mais brutas, dentro de uma cultura geral de castigar sempre que se erra.

Seja em família ou na vida profissional, em geral, não havia muito espaço para o verdadeiro “aprender com os erros”, como suscitaria o emprego do sistema 2 [2] da nossa caixola. O pensamento que atropelava tudo era: “quando eu errar, sofrerei bastante. E todos erram.”

Agora imagina se a proposta de inversão de foco da Disciplina Positiva emplacar e termos uma geração de crianças tornando-se adultos conscientes da alternativa do amor como a preferencial. Pense nessa galera assumindo postos de comando nas empresas, nos governos, nos lares. Vislumbre como poderia ser a reação diante dos erros, que, obviamente, continuarão a integrar o caminho evolutivo de cada um…

Dar-se-ia muito mais espaço para a percepção mais inteligente da Lei de Causa e Efeito. Procurar boas atitudes para colher e aprender pelo caminho que ainda é tido por porta estreita. Isso e não: “Ave Maria, melhor eu trabalhar direito porque, do contrário, virei sem pés nem mãos na próxima vida”. É trocar o combustível mental…

Talvez não seja óbvio, mas não condeno aqui as criações que se pautaram numa vara de marmelo, numas havaianas voadoras, nuns joelhos marcados por milho ou procedimentos congêneres. O contexto era outro. Lei do Progresso vem para tudo, inclusive para métodos de educação.

E que bom que a Doutrina Espírita pode colher evidência dessa Lei além dos muros dos Centros Espíritas.

A pesquisa do Kanheman, naturalmente, focou em questões de ordem material. Espiritualmente falando, há ainda um viés pesado nessa vertente em ter a culpa, a dor, o evento catastrófico como protagonistas da depuração. Mas quanto antes nos livrarmos disso melhor, certo? Fiquemos atentos ao arsenal do Bem…

[1] Tudo que eu vi foi o índice do livro da Jane Nelsen e um vídeo do Paizinho Vírgula. Viu como não sei nada do assunto?

[2] É uma alusão ao Sistema 1. Parte do nosso cérebro responsável pelas nossas decisões que vem no modo automático. Você dirigindo ou tomando banho usa o sistema 1. Você pensando no momento mais feliz do último mês que teve no seu trabalho usa o Sistema 2 (mais elaborado). As melhores páginas sobre isso estão no livro do Kanheman que eu citei.

[3] Sim. É um eufemismo de minha parte. Ninguém, que me conheceu criança seria tão sutil com as palavras. Prefiro deixar essa ressalva aqui pra baixo, onde muitos não chegam…

[4] há milhares de experimentos controlados, replicados, tudo dentro do método científico, que validam essa assertiva.

[5] não há nenhum experimento que eu saiba que valide tal assertiva. É só uma extrapolação minha, baseada em observação dos paranauê da vida mesmo.

Rafael Martins é auditor no TCU, premiado por trabalhos inovadores no combate à corrupção.

É autor do livro “10 contos polêmicos no combate à corrupção“.

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