Curiosidade com Torcicolo

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(6 minutos – Rafael Martins)

A conversa ia solta e fluida, como devem ser os encontros de quaisquer amigos que se veem a cada cinco anos. Ninguém ali premeditava a inserção de um comentário mais valioso ou substancial. Apenas apreciavam o momento, aceitando com bom-humor, às vezes com distração, as palavras que eram disparadas ao ar.

Carlos, o mais velho de todos, também era o mais calado. Para cada tema, parecia aguardar os depoimentos dos outros dois para só então calibrar o tempo que se prestaria a compartilhar as suas novidades ou opiniões.

Jairo atuava como o coelho dessa maratona de bate-papo, sempre puxando os assuntos e pautando o que se mostrasse eficaz para afugentar a tentação das amizades e frivolidades instantâneas disponíveis nos celulares.

Lina, por fim, que chegara atrasada, acabou por assumir um papel de valorizadora do tempo. Uma espécie de interventora para que, vez ou outra, fossem incluídos assuntos minimamente relevantes. Com esse foco, para além de trazer a tona questões mais interessantes, também não se furtava a aniquilar conversas que se arrastassem sem maiores perspectivas, dentro sua ótica acelerada de uma mãe de três filhos.

Não mais que isso pude perceber dessas três almas, distanciadas até ali, por meia década de compromissos materiais, que acabaram por afastá-los da rotina de encontros semanais que tinham no Centro Espírita no interior de SP.

Outras nuances dessas três criaturas talvez possam ser extraídas dos fatos que passo a narrar, na cadência que se mostrou factível ao meu papel de, inicialmente, um escutador involuntário e, com o decorrer do tempo, um curioso de olhar e orelhas persistentemente lateralizados.

Dentro de um oco que a dinâmica da conversa fez surgir ocasionalmente, Carlos optou por segurar outra vez o cardápio, dessa vez como um jornal de domingo, demonstrando que seria sem pressa a leitura que culminaria com nova intercessão junto ao garçom que os atendia.

Lina, numa reação quase mecânica, preferiu lançar o olhar para um ponto qualquer do bar que lhe trouxesse um semblante mais reflexivo, postura essa que tinha um prazo curto para expirar, já que acarretaria uma atmosfera de indiferença especialmente incômoda ao Jairo, o qual carecia de interação visual para arremessar novos assuntos.

Com Lina aterrizando sobre o campo visual do seu amigo mais falador e com Carlos ainda desbravando o miolo de opções que lhe eram todas confundíveis, Jairo arriscou:

– Gente, e lá no Centro que estou frequentando que está o maior auê porque instituíram terapia de vidas passadas (TVP) no Plano Assistencial da Casa.

– Isso não é muito bem Espiritismo – respondeu Lina ainda mirando uma posição de menor polêmica, dando uma chance do assunto perdurar.

Carlos apenas arqueou assimetricamente uma das espessas sobrancelhas, mantendo o olhar fixo e tão grudado quanto o de um medonho míope ao cardápio.

– Sim. Também penso que não é um procedimento doutrinário – falou Jairo num tom sereno e de franca aproximação, querendo assegurar a sobrevivência da nova pauta.

– Mas por que instituíram isso? Mudou alguém no comando da Casa? – disse Lina.

– Aí que está. O auê instalado, que já era grande de início, escalou de proporção muito rápido quando num dos atendimentos ouviu-se que a presidente da Casa, a Jovina que vocês bem conhecem, uma velhinha que por lá todos ainda veneram, tivera sido Cleópatra. Parece que uma adolescente que recorreu a TVP fora uma escrava sexual e rememorou a história toda, identificando a Jovina como sua algoz lá dos tempos do Egito – falou Jairo num ritmo que já escancarava elevado nível de expectativa depositado sobre a nova temática.

Nesse ponto, um nível a laser teria constatado o alinhamento de todo o tufo de pelos que Carlos trazia pregado sobre os olhos. Um lado inteiro foi erguido. Baixando o cardápio por uma brecha larga o suficiente para ainda esconder a boca, o mais experiente dos amigos murmurou um “hum” difícil de ser rotulado. Queria sinalizar que ouvira alguma coisa.

-E alguém foi lá dizer isso tudo pra Jovina? – disse Lina.

-Não. Apesar de já haver uma natural desconfiança da ciência do relato pela Jovina, ninguém está certo se seria o caso…- comentou Jairo, mais tranquilo por não antever aquela história como natimorta.

– E o que estão exatamente avaliando para saber se contam ou não? – seguia Lina, despreocupada com o romance russo que Carlos parecia enfrentar atrás daquela capa dura com a logo do recinto.

– Ora. Se é verdade ou não – redarguiu Jairo comprimindo suavemente o rosto, dentro de um efeito de quem não percebera qualquer outra resposta possível.

– E como os envolvidos pretendem fazer tal investigação? – falou Lina.

-Ouvi muito falarem em “comparar as personalidades”. Tem até um dos médiuns da casa que é historiador e já foi mobilizado para uma pesquisa mais refinada – respondeu Jairo.

– Quais personalidades? – questionou Carlos abaixando subitamente o cardápio, acenando com a mão um garçom e compartilhando uma entonação que deixou os outros dois ouvintes daquela mesa desconfiados.

Pressentindo alguma armadilha lógica de Carlos e também ciente de que aquele papo havia engajado, Jairo esforçou-se para alongar seu silêncio, convocando, com uma inclinação de cabeça, o auxílio da perspicácia de Lina. Foi atendido:

-Que outras personalidades você consideraria importantes Carlos? – reagiu Lina como quem truca com elegância e sem afetação.

-Todas as outras pertinentes ao Espírito que hoje atende por Jovina. E o mesmo para o Espírito que lá no passado atendeu pela versão famosa da Cleópatra que chegou ao nosso tempo – respondeu Carlos satisfeito com sua contribuição.

-Deve ter algum livro maluco dizendo essas coisas da Cleópatra, nem que seja de passagem – retomou Jairo.

-E tendo um livro seria tido por fato, assim, automaticamente? – desafiou Lina, agora mirando seu arsenal provocativo para o desprevenido Jairo.

-Creio que a Jovina, apesar da idade que flerta com os de lá, está mais acessível – disse Carlos com um sorriso que denunciava um alívio que retornava com o segundo prato de aperitivos que pousava a sua frente.

-Carlos, pensando aqui no que você disse antes, nem esgotando esse resgate histórico das vidas passadas da Jovina teriam o suficiente. Afinal, o espírito também evolui na erraticidade. Vai saber quanto tempo e o que ficaram fazendo por lá. E outra, imagino que as vidas mais recentes tenham maior peso nessa análise comparativa, caso lembremos aqui da Lei do Progresso. Se cada vida fosse uma roleta russa de experiência e reações. Mas sabemos que não é assim. Patinamos, mas não escorregamos para a involução.

– O curioso é que, se for verdade, pode ser que a vida mais marcante para a Cleópatra seja a como Jovina. Assim, espiritualmente falando. – arriscou Jairo num patamar de lucidez inesperado aos oito ouvidos a sua disposição.

-E um assunto dessa natureza era pra ser encarado por uma perspectiva material? – retrucou Carlos querendo aproveitar o lampejo do amigo.

– A vida mais importante para o espírito é sempre a atual, dado que é onde ele dispõe de um poder de mudança vindo do seu livre-arbítrio. O passado só serve para ser ressignificado, não modificado – disse Lina de forma atravessada e dando sinais, pelo arregalar dos olhos – que naquele ponto fazia uma auto-análise.

– Alguém questionou se, mesmo levantando-se uma pilha de fatos que comprove serem as duas um mesmo espírito, teria utilidade tal conhecimento? – reagiu Carlos depois de respeitar um breve silêncio que o comentário da Lina demandava.

-Não vi nada a esse respeito, mas a Mocidade do Centro já criou uns memes tirando vantagem de terem uma ilustre personagem da História como presidente da Casa. Jovens sendo jovens – disse Jairo

– Nesse ponto, creio que estão os velhos atrás dos jovens, que ao menos se divertem com a situação – declarou Carlos num arroubo presença de espírito.

-Mas qual seria a maior utilidade disso tudo? Você – disse Lina voltando-se para Jairo – comentou que um monte de gente está imbuída dessa questão no Centro. Pra quê essa fixação toda? O que seria doutrinariamente válido aqui?

-Sinceramente, eu não sei bem ao certo. Esses assuntos parecem tão irresistíveis quanto badaladas sejam as figuras envolvidas. É bem complicado passar desinteressado por isso, ainda mais quando tão próximo da gente – trazia em respiração confessional Jairo.

-A menina está melhor? – disse Lina lembrando-se do que parecia ser uma utilidade inequívoca.

Diante do emudecimento de Jairo, que ainda mantinha o queixo enrugado num sinal de franco desconhecimento, Carlos retomou:

-Sabe, tenho filhos jovens, que devem ter inclusive problemas parecidos com os que essa adolescente carrega. Convivo com um mantra de “buscar o diálogo, as coisas se resolvem conversando, trocando ideia”. Todo dia é isso. Quanto mais enroscado um assunto, maior a necessidade de articular o pensamento, frente a frente com outro espírito, encarnado ou não. Aí lembrei que…

-Evocação! – arrematou Lina que não conseguiu segurar o que enxergava como clímax daquele assunto.

-Evocai. Não fofocai. É…mas ninguém pensou nesse óbvio. Ainda estão presos noutras abordagens – complementou Jairo segurando a própria ficha com esmero.

Nessa altura, invoquei a consciência e optei por destravar minha atenção, que ficara muito tempo fincada por ali. Tirara os até então convenientes óculos que me impediam de contemplar aquele dia ensolarado. “Mal conhecemos a nós mesmos” – Pensei..

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