(4 minutos – Rafael Martins) Na medicina, metade do que se sabe deixa de ser válido a cada 45 anos em média. Na Física, são precisos pouco mais de 13 anos. Economia, Matemática e Psicologia veem metade do conhecimento ficar obsoleto em menos de uma década.[1]

Será o que o Espiritismo poderia repousar no tempo sem se sentir ameaçado pelas novas descobertas? Se o Espiritismo também está suscetível a Lei do Progresso, o que devemos esperar do seu futuro?

Bem, a resposta é estarrecedoramente óbvia.

Primeiro, não faz o menor sentido encarar como ameaça quando Kardec já indicou que o Espiritismo andará junto com a Ciência, ficando com esta última em caso dos dois se contradizerem. [2]

Segundo, não devemos esperar nada do futuro do Espiritismo, porque aí mesmo é que não haverá progresso algum.

O avançar da Doutrina Espírita seria convertido em um desperdício de energia por estarmos patinando no mesmo degrau aguardando ad aeternum alguém carregar a gente num trenzinho da alegria espiritual. Só que não.

Pra sair do lugar é preciso atrito.

E de onde poderia vir essa fricção por parte daqueles que fizessem mais do que um tic tac mental, que não tivessem tempo para ficar esperando?

Aqui, a resposta era pra ser óbvia, mas desconfio que não seja.

Entre as muitas vertentes de progresso do Espiritismo, a mais “na nossa cara” é o emprego do Controle Universal do Ensino do Espíritos [3] para o enfrentamento de novas questões e confirmação de outras.

Quando digo “confirmação” basta entender que seria o que a ciência atual entende por “replicação” dos estudos.

É interessante observar que muitos cientistas de hoje ainda preferem o estrelato de revelar possíveis novas e retumbantes teses, do que validar teses existentes de outros colegas, cenário este último que traria um progresso real e não aparente. Mas quem é que vive de realidade, neh? [4].

O resto da humanidade fica alijada do conhecimento e nem sabe o que não sabe, muito menos desconfia que não sabe o que acha que sabe.

É bem parecido com muito da produção intelectual do movimento espírita pós-kardec. Muita coisa nova, sem replicação (ou CUEE), propala-se tão mais forte quanto mais chamativa é a ideia. Esse critério pode valer para sucesso de seriado do Netflix, mas não para o avançar da Filosofia Espírita.

Sendo assim, além de confirmar entendimentos passados, o emprego do CUEE seria inestimável para separar hodiernamente obras espiritualistas de obras espíritas face a grande proliferação de maluquices – ou não – que se vê por aí.

Com estudo, seriedade, boa intenção e método não há nada que impeça, por exemplo, de se tentar trocar uma ideia com um Carl Sagan, Richard Feynman, Karl Popper, Bertrand Russell, Chico Xavier, Eurípedes Barsanulfo e Erasto visando palmilhar novos entendimentos ou corrigir antigos. Claro que se pode dispensar esse recurso em caso de inexistência de dúvidas. Afinal, quem as teria?[5]

Talvez apometria, misticismo quântico, experiências com células tronco, eutanásia, distanásia, ortotanásia, alterações perispirituais, doação de órgãos, homossexualidade, politização da religião e tantos outros temas mereçam uma segunda, ou mesmo uma enésima opinião qualificada.

Sempre que ler um livro embalado pelo Movimento Espírita lembre-se das quatro fontes de erros possíveis: i) o espírito comunicante; ii) o médium; iii) a editora, e; iv) sua interpretação. Isso, em todas as combinações possíveis.

Na ausência de fatos, a opinião do homem sensato é a dúvida. [6]

Quem sabe um carro tenha retrovisor e parabrisa para que possamos utilizar ambos em prol da nossa segurança, e até mesmo para que cheguemos ao nosso destino. [7]

[1] Apesar dos números serem questionáveis (https://goo.gl/GoqsLJ – minuto 1:30), qualquer humano minimamente atento reconhece essa metamorfose do saber com o tempo. Ruim pra quem decide ficar muito tempo na faculdade e acaba sendo diplomado com atraso. Consolador quando se percebe que há outras vidas para correr atrás do saber mais confiável e novinho em folha.
[2] Eu já expliquei isso no texto “Hierarquia das ideias espíritas“.
[3] Segundo Kardec:
“A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na concordância das revelações feitas espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares. […] A experiência prova que, quando um novo princípio deve ser revelado, ele é ensinado espontaneamente, ao mesmo tempo, em diferentes lugares, e de maneira idêntica, senão na forma, pelo menos quanto ao fundo.”
“A força do Espiritismo não reside na opinião de um homem ou de um Espírito; está na universalidade do ensino dado por estes últimos; o controle universal, como o sufrágio universal, resolverá no futuro todas as questões litigiosas; fundará a unidade da doutrina muito melhor que um concílio de homens”.
Óbvio que o CUEE não é um método perfeito, mas me parece imperfeição certa repousar na inércia e deixar todo esse ferramental de lado
[4] Se quiser ter uma vaga ideia do atraso que impera no mundo por conta desse egoísmo intelectual, dê uma espiada aqui e aqui.
[5] A pergunta é mortal para a certeza. Assim ensinou Will Durant, filósofo, cabeçudo, que também já morreu, mas ninguém sabe se renasceu…
[6] Segundo o autor dessa sentença, não faz a menor diferença você saber quem a proferiu. Verdadeiro ou Falso?
[7] É uma tragédia velada. Do ponto de vista material, o cientista Richard Nisbett já clareou as consequencias que todos arcamos pela falta de experimentos: “A sociedade paga caro por experimentos que deixou de realizar porque quis. Centenas de milhares de pessoas morreram, milhões de crimes foram cometidos e bilhões de dólares jogados no lixo, tudo porque outras pessoas forçaram hipóteses e criaram intervenções, mas não as testaram antes de serem executadas”- Livro Mindware. Agora pense nos efeitos do lado moral/espiritual da questão..

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