(3 minutos – Rafael Martins) Depois das urnas apuradas e de talvez mais mentiras do que verdades propaladas, comecei a divagar sobre o que seria do futuro quando misturar-se fake news com deep fake (vídeos falsificados) com a escalabilidade da inteligência artificial.

A verdade estará soterrada por tantas camadas que tudo será mentira até que se prove o contrário [1]. Esta seria a postura do homem sensato, ao próximo ao pensamento de Kardec [2].

A escavação dos fatos será tão custosa que cada um acreditará só no que viu.

Mas isso adoeceria as relações sociais. Essa necessidade de testemunho coletivo emperraria o fluxo das informações, especialmente quando se tratando de temas espinhosos. É insustentável contar somente com ilhas de verdade ou mentira. Há de se ter terras se tocando ou então piramos.

Precisaríamos dividir com outras pessoas o que sabemos. A Lei de Sociedade esmiuçada em O Livro dos Espíritos se impõe.

Mas qual o critério de transmissão eficaz das mensagens?

Alguns pensariam que a credibilidade viria do domínio técnico sobre o assunto. Todavia, isso é insuficiente já que se pode muito bem embaçar a verdade quando uma má conduta se combina com um cabedal acadêmico, por exemplo. Em miúdos, um gênio do mal está mais propenso a ser um Senhor do Caô do que um Anjo da Verdade.

Nesse ponto, talvez percebêssemos que a credibilidade moral se sobrepõe.

Sim.

Honestidade para não mentir. Humildade para silenciar quando ignorante. Satisfação real em disseminar fatos concretos.

Ou seja, retornaríamos à antiguidade. Conhecimento passado de forma pulverizada, precipuamente por tradição oral, e de forma tão mais consistente quanto maior a solidez moral e, quando possível, técnica, do transmissor.

Não deixa de ser um estímulo à transformação moral que cada um precisa. Do contrário, seremos só loucos bradando no alto de caixotes de praças públicas.

Fiquemos preparados. Se a mentira machuca a gente, a verdade pode perturbar ainda mais. Se duvida, imagine a realidade de Black Mirror (episódio Crocodile) com várias temporadas “para trás”.

 [1] Essa projeção não é tão longínqua assim. Hoje em dia já há agências de “fact check” capturadas só por um lado da suposta verdade, o que, por definição, não deixa de ter seu naco de mentira. Já há também quem cheque os fatos checados por tais agências. Com o volume de notícias passível de ser parido pelas máquinas, essa checagem será infinita. A História será cada vez mais míope e infantil.
[2] Pra ser preciso, Kardec disse que na ausência de fatos a postura do homem sensato é a dúvida. Acredito que seja a mesma coisa na abundância de potenciais pseudo-fatos.

 

 

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