(4 minutos – Rafael Martins)

Voltando de férias com meu filho de sete meses e a esposa, e já com saudades de casa, tive uma experiência curiosa no voo. Não sabia, nem havia parado para pensar a respeito, mas adultos que gostam de crianças podem te deixar desgostoso com o tempo da viagem.

Um senhor bem senhor mesmo, daqueles que quando mexem a face produzem milhares de linhas fininhas e profundas, estava sentado na fileira atrás da nossa. Desde o início, rolou uma magia entre as gracinhas desse vizinho de assento e a atenção do meu primogênito, que ria gostosamente e me escalava para manter a interação com o Seu Batista Flores.

-Tenho um netinho de um ano e três meses e agora estou indo ver vários sobrinhos e seus filhos e outros netos e bisnetos. Sou o último de uma geração. Se contar tudo, tenho mais de 80 pessoas que vieram de mim”

Eu até parei para recalcular a idade do ancião garanhão e presumi, maliciosamente, que ele teve mais de duas esposas ao longo do apostolado como Abraão. Teve porque não usava aliança, e sua pele de bicho de goiaba bronzeado não tinha nenhum resquício de marca no dedo anelar.

Devia gostar de criança e do processo de fabricação também. Faz parte.

Daí, começou uma gaitada sem fim sobre futebol.

O tiozão era palmeirense, estava vestido com uma camisa do Palmeiras, mas repetiu a quem seu coração balançava quartas e domingos umas 18 vezes. Nesse trajetória eu encarei a camiseta dele de novo, tentando ver Guarani, Coritiba ou qualquer outro time  “verde”. Não achando nada, conclui que eu estava com cara de surdo.

Pior que isso, eu estava com uma camiseta preta, o que me fez merecer alguns cutucões entre as costelas a fim de me defender do suposto crime de ser corintiano. [1]

Dessa parte em diante eu já estava triste que meu filho não chorava nem um pouquinho nem dormia muito.

O chefe do clã Flores não esmoreceu nem mesmo durante umas breves mamadas do filhote:

– Onde está o fofão? Cadê o meu fofão? – dizia o velho nativo do Goiás e radicado na Bahia mesmo sem poder ver onde meu filho estava e o que estava fazendo.

Eu resmunguei alguma coisa olhando para algum lugar no meio do percurso entre o assento a minha frente e os olhos octogenários, como quem já quer voltar a cabeça rapidamente para a posição original e só largar umas palavras soltas para se virarem com o receptor.

Meu filho virou personagem infantil bisonho por conta das suas bochechas e minha esposa estava com a cara tão amarrada que eu comecei a procurar onde estava a minha parcela de culpa naquele episódio. Acho que eu já estava atrasado nessa busca…

Dobrei meu pescoço lateralmente fingindo que tinha desmaiado de sono. Um cena bem chocante mesmo. O fiz de uma forma que ficasse tudo bem nítido para o velhinho singular reparar e mudar de atitude. Sei lá…jogar um Sudoku, folhear uma revista, perturbar alguém de trás, ir ao banheiro.

Não adiantou nada. Tomei outro cutucão, que veio acompanhado de um: “cadê o meu palmeirense?”

Talvez esse senhor seja meio cego e muito surdo. Pensei isso rápido e com muita força, já que essa estratégia costuma funcionar no trânsito.

– O senhor aceita um lanche? – disse a aeromoça ao representante da última idade.

– Não. Obrigado. Às vezes eu passo mal, mas estou com o saquinho aqui qualquer coisa.

Eu que estava torcendo para aquele homem catar alguma coisa e ficar em silêncio ao menos durante umas breves mastigadas, mais uma vez, me frustrei. Pior que isso, imaginei ele chamando o Raul e tornando a situação ainda mais bizarra.

Minha culpa poderia aumentar por culpa dos enjoos de outra pessoa.

Os demais vizinhos de assento, que estavam tentando dormir, traziam semblantes indignados. Uma mulher se retorcia ao lado do velhinho na tentativa de sinalizar a agonia de alguém buscando uma paz de quinze minutos.

– Meu filho vai tentar dormir um pouco agora – eu disse.

Lembro bem de ter falado isso nos mesmos decibéis do Batista e de uma forma com que os irritadiços ao redor percebessem minha tentativa de trégua. O paizão finalmente interveio era o recado que eu queria passar.

Adiantou nada.

Outro cutucão. Outro Palmeiras. Outro “Cadê Fofão?”. Pelo menos, nada de vômito.

Eu comecei a rir. Mais alto por dentro do que por fora. O desespero cuidava dessa delicada interface.

Inclinei meu corpo para frente de forma bastante exagerada, tentando fugir das perfurações com o dedo indicador do Sr. Flores. Nessa manobra, aproveitei para bisbilhotar uma apresentação que um cara da fileira da frente estava fazendo. Era alguma coisa de machine learning para escritório de advocacia.

-Que que você tá lendo aí owww!? – disse minha esposa baixinho.

-Eu to lendo quase nada. Eu to mesmo é fugindo – respondi, certificando-me que o nerd que fazia a apresentação continuava com o fone de ouvidos e compenetrado em conseguir mais um cliente.

-Isso é feio – respondeu a mãe de meu filho, meio que não querendo sofrer sozinha diante da minha escapada propícia.

– Retomem o encosto da cadeira para a posição vertical – falou o chefe da tripulação.

Pela primeira vez eu pensei se o meu caso estaria ou não atendendo essa regra para aterrisagem. Poltrona na vertical e corpo – sabe-se lá como – amarrado com o cinto, mas meio que na horizontal.

Tive vergonha da vergonha que poderia trazer a aeromoça que precisasse me repreender e voltei minhas costas delicadamente para trás, meio que sem respirar.

-Cadê o fofão? – disse o palmeirense assim que eu encostei no diabo do encosto. Por algum motivo, eu era o elo oficial e permanente entre o meu filho e aquele senhor.

-Gosto sempre de respeitar a autoridade dos pais sobre a criança – disse o velho parecendo tentar se defender da minha cara muda.

Eu não entendi esse ato e então continuei calado e bem desconfiado. Minha esposa e alguns colegas de trabalho mais observadores bem sabem dos meus protestos silenciosos.

O avião pousou e eu agradeci por estar cheio de malas e sem espaço para qualquer chance de carona. Eu já não duvidava de nada.

Mais de 24 horas depois de tudo isso, após, aqui em casa, minha esposa ter falado aleatoriamente algumas vezes – todas para me provocar – a palavra “fofão” eu me dei conta:

Meu filho é muito fofo mesmo e eu poderia ter retrucado “sem mundial” para o palmeirense e soltado uma gargalhada. Ou então, ter ido ao banheiro logo após o primeiro toque do Sr. Flores e meditado uns 40 minutos . Talvez funcionasse se eu mandasse um recado escrito: “Meu filho cansou de você. É verdade esse bilhete.” Vai saber… e se eu me petrificasse e continuasse imóvel mesmo com os cutucões? Acredito que não ganharia uma coronhada.

Pais de primeira viagem aprendem muitas coisas com um atraso um pouco exagerado.

Faltou presença de espírito. Faltou paciência com inteligência. Só comecei a rir disso tudo agora.

[1] A camiseta trazia a seguinte mensagem: “estou cercado por idiotas” em alusão a uma situação enfrentada por Rick no desenho Rick and Morty.

 

 

 

 

Um comentário em “Sem reação

  1. Segundo Allan Kardec no Evangelho Segundo o Espiritismo – “a benevolência para com seus semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz afabilidade e a doçura, que lhe são as formas de manifestar-se.
    Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei da caridade ensinada pelo Cristo.”

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