(4! minutos – Rafael Martins)

I – PRELIMINARES

Pode.

Até porque a Doutrina Espírita não é um tribunal, mas sim uma poderosa ferramenta de esclarecimento.

Dito isso, a segunda pergunta que aparece é: seria coerente  com o esclarecimento propiciado pelo Espiritismo o aborto, em especial aquele que é debatido no STF – ADPF 442 – possível descriminalização da interrupção da gravidez até a 12a semana?

Antes de mais nada, minha despretensiosa função aqui é provocar-te e provocar-me tentando nos lembrar precipuamente das perguntas que cada um pretende escolher para justificar o atual posicionamento. Sim, das perguntas.

Outra coisa, o foco aqui é a discussão do aborto (ADPF 442) tomando-se por base estritamente os ensinamentos espíritas. Essa discussão ficaria muito maior que minha paciência, e talvez a sua, se tentasse enveredar por outras abordagens em um mesmo texto. Outros motivos para essa opção constam mais à frente. Logo, se você é espírita ou tem o trunfo da curiosidade rola de dar um rolé por aqui.

II – QUEM JULGA NÃO TEM TEMPO DE AMAR – Madre Tereza 

De bate-pronto, neste exato instante o que lhe vem à mente sobre todo o tempo da sua vida gasto e a gastar para tratar diretamente ou indiretamente da temática aborto? Você penderá mais para uma atuação julgadora [J] ou auxiliadora [A]? São mais discussões ou ações?

É incrível como temas complexos nos instigam mais a querer saber o que é certo ou errado com a carga de subjugar alguém, a fim de ganhar uma disputa em um palanque virtual, em vez de aprimorar formas de ajudar os que vivem a complexidade real de diversas situações desafiadoras.

Apuremos a extensão dessa crítica.

Visualize o que seria melhor: todo o movimento religioso do planeta atuando contra a descriminalização do aborto ou esse mesmo movimento agindo diretamente na educação moral/prevenção e também no acolhimento das famílias já impactadas?

Eu sei que essas alternativas não são inteiramente excludentes. Inclua então na sua linha de raciocínio como era a postura de Jesus ante o poder temporal vis a vis as Leis Divinas. Estava Ele mais atarefado em influenciar mudanças nas leis e costumes que lapidavam pecadores ou com a lapidação moral de espíritos acusados pela rispidez da época? Como o Cristo não era um aplicador do Direito terreno ele não se limitou em dizer à adúltera “eu não te condeno”, mas foi até o “e não peques mais”. Qual a implicação disso?

Ao espírita caberá sempre o esforço de atuar como um auxiliador [A], e não como um julgador [J]. Isso fica bem claro quando se combina o lema “fora da caridade não há salvação” com a questão 886 de OLE:

886. Qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entende Jesus? – Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas.

Se eu fosse conservador nas palavras, reconheceria que talvez o mais acertado e proveitoso à parcela da humanidade que esbarrou com esse blog seria parar o texto por aqui.

E sinceramente, independente de concordar comigo ou não, deixe pra ler o restante do texto daqui umas primaveras. Eu o farei. O tempo sempre ajuda.

Contudo, e isso é importante registrar, como o potencial auxílio pode ser explorado antes ou depois de um eventual ato abortivo, é indiscutível que está presente a função de esclarecimento dentro da abordagem de ajudar alguém [A]. E quem esclarece, pode, se precisar dizer o que está certo ou errado, acredite ou não, sem julgar, mas por caridade (OESE – Capítulo X – É permitido repreender os outros, notar as imperfeições de outrem, divulgar o mal de outrem?). A leitura desse trecho do Evangelho é obrigatória para aqueles que não sabem a diferença entre discordar e julgar. Para o que discordam disso também.

A propósito, não se engane. Caso desse texto você só se recorde das vindouras linhas, tem aí a prova de ser muito mais [J] do que [A], ao menos em relação ao presente tópico.

III – MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO – Jesus

Retomando.

Só que para esclarecer alguém você vai precisar tomar uma segunda decisão. Nessa nova bifurcação, você leitor abordará as polêmicas envoltas com esse tema fazendo prevalecer o aspecto material [M] ou o aspecto espiritual [E]? Meus argumentos, eu já adiantei isso, enfocarão o lado [E].

Preste atenção que em “prevalecer” só cabe um dos dois aspectos. Não há como haver duas preponderâncias, duas maiorias. Ainda assim, você como espírita pode e deve muito bem levar em conta diversos outros prismas que pesam nesse assunto (sociológico, saúde pública, bioética, psicológico, entre outros – [M]), especialmente quando estiver tratando desse assunto com pessoas não espíritas.

Entretanto, para uma pessoa espírita, a ótica espiritual [E] pesará mais ou menos que todas as demais?

Novamente, friso que tenho ciência não se tratar de um conjunto absolutamente vazio a intersecção entre [M] e [E]. Não obstante, caso haja uma conflito entre essas perspectivas você deve saber o que pesa mais na sua balança.

Defina isso como espírito imortal que é. Ou ainda, defina isso como ser humano com seus sentimentos. Use seu livre arbítrio. Só continue a leitura depois de passar por esse segundo crivo. Não precisa esperar outras primaveras.

IV – A SOLUÇÃO PARA QUAL PROBLEMA?

Superada essa etapa, já podemos avançar com mais tranquilidade.

Quais problemas você quer solucionar? Descriminalizar ou não tem a ver com quais fatos que queremos ver menos ou ver mais?

Você quer menos pessoas morrendo?

Já fica até imaginando um dashboard daqui a uns anos com o resultado de uma primorosa política pública brasileira – o sarcasmo depende mais de você do que de mim – baseada em “dados oficiais”, além de blogs trazendo “dados dos blogs mesmo” atestando uma redução do número de mulheres que vieram a óbito devido à realização de aborto por opção? Seria isso mais ingenuidade ou otimismo alinhado com a Lei do Progresso?

Foi esse tipo de pensamento exageradamente utilitarista e [M] que, supostamente, justificou soltar duas bombas atômicas para matar menos gente do que morreria se a Segunda Grande Guerra continuasse na mesma toada. Quem foram os inocentes da história?

Se essa parte lhe perturbou fique à vontade para retroceder algumas casas e pensar mais um pouco sobre as abordagens [M] ou [E] – uma hora o conflito sempre aparece e todo espírita é mais [M] para algum assunto em alguma circunstância específica. A comparação com a Guerra é exagerada e só foi feita para chamar a atenção para as perguntas espalhadas por aqui. Em tempos de ânimos bestializados é sempre bom não esperar muitas linhas para a explicações desse naipe – ainda que óbvias.

Mas, e se menos pessoas morrendo implicar mais espíritos sofrendo mais? Quantas “portas na cara” caberiam, em número de abortos até a 12a semana de gestação, ao longo da vida fértil de uma mulher?

Pesará o curto prazo da carne ou o prazo um pouquinho mais alargado do espírito?

Espero que nesse ponto você tenha entendido realmente a necessidade de se enquadrar em [M] ou [E]. Talvez esse papo de “não se servir a Deus e a Mamom” vá muito além de grana e valha também para outras coisas materiais. Tipo a parte de nossos corpos que é de fato a nós emprestada e não adquirida em um leilão junto a Deus.

Mas, e se Mamom for um trampolim inesperado para um melhor cenário, quase uma mão esquerda de Deus?

Por exemplo, se por meio da legalização do aborto o Estado necessariamente acolher a mulher para dar-lhe tratamento psicológico, dar uns toques sobre planejamento familiar e com isso, refrear ou mitigar o risco de uma banalização da própria prática abortiva?

Há de se cogitar sobre o que ocupará mais espaço. Se o fim do medo de ser presa, se as lições dos especialistas da matéria e da psique, ou se o sobrevoo constante e oportunista de abutres mercadológicos. Daniel Kahneman (psicólogo nobel em economia em 2002) já demonstrou em pesquisas ao longo de sua vida que, para uma mesma intensidade, ainda reagimos melhor a incentivos que nos assustam do que aqueles que nos alegram…

Eu iria mais além.

Você consegue vislumbrar o impacto da corrupção hoje tão escancarada atuando nesse novo nicho de mercado? Faz sentido abraçar a premissa de que Mercado e Estado atuarão de maneira ética, profissional, minimamente confessável? Talvez seja mais razoável convocar Sísifo para enganar a Morte.

Além disso, não é desarrazoado imaginar que haveria alguns casais repetentes, passando novamente pela mão acolhedora do Estado ou Governo (vai saber), que atuaria como uma avó que não consegue corrigir o neto porque não atua tempestivamente na origem do problema. O mesmo que tentar corrigir um erro com outro.

A propósito, haveria algo que esteja atualmente impedindo uma atuação junto aos jovens, especialmente das classes mais fragilizadas? Qual o empecilho para a educação desde agora sobre “faça tantos filhos quanto puder criar/amar e não de acordo a sua libido”?

“Meu corpo, minhas regras” está mais para [M] ou [E]?

Essa lógica que taca pedra em tudo com base no livre arbítrio não seria uma opção sustentável – segundo o bom senso de Kardec – para algo como o suicídio, uma inquestionável perda para quem recorre a tal medida.

957 – Comentário de Kardec

A religião, a moral, todas as Filosofias condenam o suicídio como contrário à lei natural. Todas nos dizem, em princípio, que não se tem o direito de abreviar voluntariamente a vida. Mas por que não se terá esse direito? Por que não se é livre de pôr um termo aos próprios sofrimentos? Estava reservado ao Espiritismo demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é apenas uma falta como infração a uma moral, consideração que pouca importa para certos indivíduos, mas um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica e até pelo contrário. Não é pela teoria que ele nos ensina isso, mas pelos próprios fatos que coloca sob os nossos olhos.

Caberá aqui a analogia com o aborto já que as complicações geradas pela interrupção voluntária de uma gestação podem levá-la a óbito? Ademais, a própria mãe sempre perderá, em maior ou menor grau, com tal medida, só variando o nível da sua responsabilidade e de todos os implicados. Ou será que há alguém que ganha com isso? Se o bom senso de Kardec deixou a dica para não tirar a própria vida, que dizer de tirar a vida do próximo? Mais ainda, e quando esse próximo não pode se defender? E se esse próximo fosse você?

Em contraponto ao “meu corpo, minhas regras”, não deveria o espírita pensar: “dois espíritos, dois corpos, quais regras? Em algum momento, as Leis Divinas deveriam passar pela cabeça.

Fosse o espírita coerente e talvez bastaria imaginar que o problema a ser enfrentando – sob a ótica da Doutrina – é sempre a promoção da evolução moral e intelectual dos seres encarnados, desencarnados ou a reencarnar. Aí reside a abordagem coerente da questão.

Por conta disso, para aqueles espíritas defensores da descriminalização do aborto (ADPF 442) e bastiões de estatísticas de outros países, trago alguns indicadores. Imaginem vocês os resultados:

1. Percentual de satisfação dos espíritos na erraticidade com a potencial legalização do aborto (separe esse indicador pela evolução dos espíritos interpelados);

2. Percentual de satisfação dos espíritos já abortados (separe aqui também pela evolução dos espíritos interpelados). Nesse último, cabe ainda uma subdivisão – por estupro e/ou por fraqueza dos pais, perigo de morte à mãe, etc.

3. Percentual de pessoas encarnadas que não suportariam os argumentos que ora defendem se estivessem para reencarnar.

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A utilidade dos dados sempre será escrava do viés que se quer dar: [E] ou [M]?

Para melhor respaldar não os mandamentos, mas as orientações intrínsecas ao Espiritismo sobre o tema, busquemos a fonte mais segura.

V- O QUE ENCONTRAMOS EM O LIVRO DOS ESPÍRITOS?

A seguir, alguns trechos comentados de questões de O Livro dos Espíritos, além de transcrições mais relevantes.

344 – A união da alma com o corpo começa na concepção. Logo, abortar engloba alguma medida de frustração por algo que já se iniciou e não vai se concretizar.

O mais interessante nessa questão é que na primeira edição de OLE a resposta trazia no momento do parto. A espiritualidade indicou necessidade de revisão na obra e isso não passou batido. Será por acaso

353 – Kardec preferiu colher mais evidências acerca disso. Veja a próxima questão trazida na íntegra pela relevância.

353 . A união do Espírito com o corpo não está completa e definitivamente consumada, senão depois do nascimento, pode considerar-se o feto como tendo uma alma?

– O espírito que o deve animar existe, de qualquer maneira, fora dele. Propriamente falando, ele não tem uma alma, pois a encarnação está apenas em vias de se realizar, mas está ligado à alma que deve possuir.

356 – explica que há alguns natimortos que não são destinados à encarnação de nenhum espírito. Mas se alguém souber de antemão qual gestação se encaixa nisso, por favor me avise como o fez. Ademais, a continuidade da resposta aduz que “tais crianças só vêm por seus pais“. Isso se eles toparem aproveitar tal prova – bastante complicada – ao máximo, indo até o fim da gestação. Para ficar claro, depende dos pais cumprir ou não com o que provavelmente concordaram ao usar previamente o magnânimo livre-arbítrio.

357 – Aqui se esclarece que a consequência para o espírito que tem o corpo abortado é “uma existência nulificada”, que fará ele recomeçar. Se as pessoas sofrem de ansiedade por uma entrevista de emprego, de depressão pelo fim de relacionamentos completamente zuados, que se pode imaginar sobre a frustração de uma encarnação inteira adiada? Muitos desses espíritos só estavam necessitados de uma demonstração de amor verdadeiro, que se inicia com a defesa da vida. Pena que fertilidade não implica amor de mãe, muito menos de pai.

Tem uma frase que é tão clichê quanto constrangedora nessas horas. Vou encurtar para reduzir o embaraço: e se fosse você recebendo um “hoje não?”

358 – Aqui é o olho do furação, ou o zigoto da contenda. Para o empoderamento do “seu corpo sua regra prevalecer”, seria necessária uma verdadeira reforma no entendimento de uma penca de gente sabida (São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luiz, O Espírito da Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc) que auxiliou na forja de O Livro dos Espíritos.

Pela importância, cabe a reprodução completa.

358. O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época da concepção?

– Há sempre crime, quando se transgride a lei de Deus. A mãe, ou qualquer pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida à criança antes do seu nascimento, porque isso é impedir a alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento.

Por partes. Comecemos pelas amenidades.

“Provocado” é diferente de natural. Isso já põe numa categoria completamente diferente uma grande quantidade de gestações não completadas.

Já por “qualquer época da concepção” vemos a importância da correção promovida entre a primeira e a segunda edição de OLE. Esse acaso é danado mesmo…

Em “sempre”, você pode estar certo, cabe todo o tempo do mundo, inclusive o futuro. Tempo suficiente até a gente virar espírito de luz e nem precisar mais encarnar.

Quando se lê “Lei de Deus” tem-se o fechamento de uma assertiva muito poderosa, dada a imutabilidade das leis divinas. Complicado imaginar que os sussurros em torno da “atualização da Doutrina” levariam a uma emenda na terceira revelação no que tange a corrigir um tipo de Lei que provém da causa primária de todas as coisas, inteligência suprema, a onipotência.

Se você acha factível modificar ou, de forma mais branda, atualizar as Leis Divinas, adianto que observarei em silêncio do onde viriam seus argumentos. Depois de ouvir, eu continuaria mudo e maravilhado. Afinal, teria muito o que aprender contigo. Hipótese possível, mas não muito provável.

Motivo do meu improvável silêncio:

614. O que se deve entender por lei natural?

– A lei natural é a lei de Deus; é a única necessária à felicidade do homem; ela lhe indica o que ele deve fazer ou não fazer, e ele só se torna infeliz porque dela se afasta.

615. A lei de Deus é eterna?

– É eterna e imutável como o próprio Deus.

616. Deus teria prescrito aos homens, numa época, aquilo que lhes proibiria em outra?

Deus não se engana; os homens é que são obrigados a modificar as suas leis, que são imperfeitas, mas as leis de Deus são perfeitas. A harmonia que regula o universo material e o universo moral se funda nas leis que Deus estabeleceu por toda a eternidade.

Da Lei Divina de Justiça, Amor e Caridade:

880. Qual é o primeiro de todos os direitos naturais do homem? –

O de viver. É por isso que ninguém tem o direito de atentar contra a vida do semelhante ou fazer qualquer coisa que possa comprometer a sua existência corpórea.

[resposta que inclusive encabeça manifestação da FEB – https://goo.gl/Xc7hte – que enfocou argumentos jurídicos e médicos]

Voltando à dissecação da 358.

No trecho “qualquer pessoa” atende-se a muito das discussões que atualmente orbitam em torno do aborto, no que tange a não limitar à mulher a problemática do tema. Entendo que caiba aí o pai, o médico, o diretor da clínica, a recepcionista, as amizades, vivos e mortos, enfim, todos aqueles que tenham colaborado para o ato.

Sobre esse aparente ar implacável, lembremos que a DE assenta que há sim certo e errado, bem e o mal, variando somente nossa responsabilidade (OLE – 636). Mais ainda, que responderemos não só pelo mal feito, mas também por todo o bem não feito (OLE – 642).

A parte final, na qual destaquei “impedir” [porque isso é impedir a alma de passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento] atesta que os espíritos que responderam a questão proposta por Kardec, como não podia deixar de ser, trouxeram um caráter muito mais [E]  do que [M].

359 – Nesse ponto, após Kardec melhor explorar o tema, colheu-se a resposta de que quando o nascimento da criança traga perigo à vida da mãe, entende-se como preferível sacrificar o ser que ainda não existe a sacrificar-se a mãe. [1]

Penso eu, em face do contexto que ronda o OLE e por conta da própria construção da frase, que em “perigo” amolde-se apenas à questão biológica. Se alguém alarga esse conceito para “perigo psicológico” ou mesmo “perigo financeiro”, encaro como um malabarismo interpretativo. Ademais, à época já havia estupro, má formação de fetos e outras questões que não escapariam das observações da Espiritualidade. Mas isso é outra história (fora do escopo da ADPF 442).

360 – Seguindo o embalo, quando interpelando sobre a racionalidade em se devotar  a um feto a mesma devoção de uma criança que viveu algum tempo, extrai-se a ideia que devemos “ver em tudo isso a vontade e obra de Deus”. Percebe como é difícil ser [E] o tempo todo?

Não pára aí. “Por que não respeitar as obras da Criação?” e “ninguém é chamado para ser seu juiz”, resumem muito bem a miopia espiritual de “meu corpo minhas regras”.

VI – TRETAS COMPLEMENTARES

Daí quando algum espírita chega e diz (https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/a-quem-interessa-um-discurso-unico-dentro-do-movimento-espirita):

Temas da atualidade precisam ser amplamente debatidos dentro das casas espíritas considerando-se a opinião de religiosos/as e não religiosos/as, como é o caso da descriminalização do aborto. Precisamos dar vez e voz às mulheres e atuarmos juntos/as na busca de políticas públicas de qualidade, de resposta fraterna, empática e verdadeiramente eficaz para o grande número de morte de mulheres, em sua maioria negras e empobrecidas, decorrente de abortos inseguros.  Será que é muito difícil para os homens ouvir mais e falar menos?

Pensamos quais não seriam as circunstâncias que o levaram a, cuidadosamente, omitir o número de bebês mortos, por definição, sempre superior ao número de morte de mulheres. Esse nível de matemática é acessível a todos. Talvez seja o caso também de estudar mais e escrever menos.

Enquanto a lavra de Kardec estava em sinergia com a Espiritualidade Maior, o ilustre autor tem sua credibilidade restrita e apequenada por um veículo da mídia que tem seus interesses ideológicos perceptíveis por um jovem de 12 anos.

No mais, segundo o autor: “Por que devemos nos estagnar, impedindo o debate e aceitando como verdades absolutas aquilo que é passível de diferentes interpretações?” Vou pegar meu banquinho para sorver os argumentos utilizados por esse novo cânone que reinterpretará as Leis Divinas.

Aliás, especulo eu que essas piritas interpretativas sejam decorrentes de pessoas, algumas até com boa intenção, só que mais alinhadas a ideologias de esquerda do que aos ideais do Espiritismo. Humanistas mais materiais no sentido do ser humano, do que no sentido do ser imortal. E nem se deram conta disso. E atenção. Isso não é por si só recriminável. É apenas um estado do espírito. [2]

A propósito, refletindo sobre essa especulação, vejo uma incoerência curiosa.

Concebe-se, de maneira geral, que a esquerda lute – diga-se de passagem de forma muitas vezes louvável – mais que outros para defender os mais fragilizados. É assim com a mulher agredida – Maria da Penha -, com o racismo – crime de injúria racial -, movimento contra homofobia, etc. São várias as iniciativas.

Só que quando a pauta avança para defender O MAIS FRACO ENTRE TODOS, o potencial abortado, aí já não há condições de lucidez para se proteger o reencarnante.

Preferem tais “estudiosos da obra de Kardec” circunscrever o problema só até o segundo elo mais fraco, a mulher.  Nesse ponto, vê-se a diferença que há entre um espírita de esquerda e um esquerdista espírita. As livres opiniões acabam por revelar um cerceamento da abordagem espiritual na cabeça de muitos. [3]

Entre outras opiniões no Movimento Espírita (https://blogabpe.org/2018/07/07/qual-o-problema-da-militancia-dos-espiritas-contra-a-descriminalizacao-do-aborto/) eu entendo útil reproduzir a da ABPE, em que trarei meus comentários justapostos entre chaves no meio do texto da autora.

De um lado, a liberdade da mulher de fazer o que quiser com o próprio corpo (mas há outro corpo e outra consciência ali) [e quando a mulher já foi livre pra concordar em receber um outro espírito ainda na erraticidade? Ah, ela pode ser livre para discordar da sua própria opinião. Ok. Será sempre escrava das consequências desse vaivém. Alguém a avise] e de outro lado uma questão de princípios religiosos (mas esses princípios não poderiam se apresentar como parâmetro social de uma coletividade em que há crentes e ateus e divergências de visão de fé – o Estado deve ser laico e não pode se orientar por determinações religiosas) [essa parte não se aplica ao propósito do meu texto, que não quer convencer a sociedade, mas tão somente chamar a atenção de uma minoria espírita].

Primeiramente, podemos considerar o aborto um trauma psíquico para a mãe e para o espírito reencarnante, mas não precisamos com isso criminalizar a mãe e encarcerá-la. Isso é desumano, desnecessário e ineficiente para coibir o aborto [Argumento que não passa de um gigante com os pé de barro, dado que não há evidências de se coibir nenhum crime por qualquer tempo preso. Descriminalize-se tudo então?].

As pontas soltas na argumentação da autora ficam evidentes ao se analisar conjuntamente a seguinte parte:

E o problema dos espíritas não é militar contra o aborto, mas a maneira que o fazem e a exclusividade de sua militância por essa questão. [Primeiro, se for mesmo exclusividade – vai saber como a autora teve condições de sobrevoar todo o MEB para concluir isso – haveria de fato um ponto a ser melhorado]

Ao invés de ficar batendo na tecla de não descriminalizar o aborto, porque os espíritas (e com isso digo as instituições que se julgam representantes do espiritismo) não discutem as mortes de mulheres pobres nas clínicas de aborto clandestinas, por que não falam do machismo da nossa sociedade que não ampara a mulher na maternidade, a partir de muitos pais, homens, que consideram que não é com eles (eles não deveriam ser criminalizados também nesse caso?) [SIM! e com sentenças maiores do que as mulheres], da miséria estrutural que não favorece a consciência social da gravidez desejada e responsável? [Há um motivo bem simples para se falar mais da descriminalização do que desses demais pontos, ainda que seja necessário melhor distribuir os esforços. Tal motivo é que a mulher pode ter uma chance, ainda que ínfima, de se defender de um troglodita com quem seja casada, de não morrer em clínicas clandestinas, de sobrepujar limitações estruturais que a aflijam. Já o reencarnante não tem chance nenhuma contra os que o abortem. Nunca.]

Encerremos esse subtópico das tretas trazendo a opinião de uma entidade que é mais especializada do que eu em lidar com isso

Temos que nos conscientizar de que o aborto não educa, não é solução. A alegação de que a mulher pode decidir porque trata-se do seu próprio corpo, não resiste a uma argumentação mais lógica de que o corpo que traz dentro de si, não é sua propriedade, tendo também, por ser vida, seus próprios direitos.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICÓLOGOS ESPÍRITAS

VII – QUESTÕES MAIS OBTUSAS

Qual a diferença biológica de um filho gerado “sem agressão” e de um filho gerado “por uma agressão”?

A criança gerada sem ser pelo estupro é diferente perante as Leis Naturais, da gerada pelo estupro? Se sim, em quais pontos?

Fetos gerados pelo estupro são anomalias perante as Leis Naturais?

E as mães que morrem em consequência de um aborto clandestino? Ao invés de uma, se perdem duas vidas! O que é pior? Será que se perdem duas vidas, só que, a priori, sob condições espiritualmente piores do que a mãe que só aborta pra não morrer? Ou não?

E em caso de descrminalização: A mãe que recorre a clandestinidade vai ter grana para abortar em um lugar minimamente adequado? O Estado passará a ser eficiente justamente nesse ponto para as mais pobres?

Faz sentido ser contra o ato do aborto, mas não contra a sua descriminalização (ADPF 442)? Por que expor às malhas da persecução penal uma mulher já bastante penalizada emocionalmente e quase sempre, socialmente? Muitas pessoas confundem a descriminalização com aquiescência. Não?

Então podemos livrar da persecução penal todos os criminosos “penalizados emocionalmente e socialmente?” Olha que pelas desigualdades que assolam o país, deve haver uma pancada de gente nesse bolo. Imagine só. Os presídios ficariam mais vazios e a vida em sociedade mais agitada.

Por que tudo isso parece uma cilada de argumentos?

A jurisprudência dos homens prevalece sobre as Leis Divinas?

VIII- TRIPÉS, E NÃO TRIDENTES, OPORTUNOS

Em tudo tenta reparar sempre três coisas: Intenção. Esforço. Conhecimento.

Só quando você souber em sua completude toda a extensão da intenção, todo o nível de esforço e todo conhecimento que determinada pessoa tinha diante de qualquer decisão é que você poderia julgá-la com perfeição. O trabalho seria tão descomunal que não acaba mesmo sobrando tempo para amar, como alertou Madre Tereza.

Daí que esse tribunal dos nossos atos é uma sala particular entre Deus e cada ser. Um cômodo chamado consciência (OLE 625).

Segundo tripé.

Saiba também se posicionar entre CRITICAR com ar de juiz ou RESPEITAR tendo ciência que as pessoas pensam diferente e/ou NÃO INCENTIVAR a decisão por atos não aderentes às Leis Divinas.

De forma mais prática, presta atenção para não confundir “discordo da sua opinião, mas a respeito e quero ajudar” com “você é culpado”, expressão esta que invade subitamente a mente dos mais imaturos depois de ouvir “discordo”. Quem discorda analisa o fato, não examina a culpa, não arbitra sanções, não faz exame de culpabilidade, nível de responsabilidade, nada disso.

Não necessariamente quem aponta o erro é juiz numa questão. Até porque em a Doutrina Espírita o julgamento é tão íntimo e intransferível quanto a responsabilidade. Como reagimos diante da dúvida (antes do ato) ou mesmo depois do ato (errando ou não) é sobremaneira importante. Se duvida, pode papirar novamente o capítulo “Bem-aventurados os que são misericordiosos” do Evangelho Segundo o Espiritismo. Aprenda com São Luís ou nos ensine.

Quem só procura ajuda com quem pensa igual demonstra carregar uma postura de criança, quando muito de adolescente, que sabe muito bem com qual dos pais barganhar por um pleito indefensável.

IX – CONCLUSÃO

Isso é comum. Quando diante de um problema muito difícil, tendemos a torná-lo difícil demais. Com isso, quase sempre se tenta a correção nas vestes de um paliativo, um jeitinho, um bypass que não se aproxima da origem da questão. Vejo isso na engenharia, na auditoria, dando aula, no futebol, jogando videogame, entre outros. O problema não é da ciência, do trabalho, da pedagogia, do esporte, do Skyrin, tampouco do Espiritismo, do Estado, do Mercado, etc. O problema somos nós que atuamos nessas áreas.

Um antitérmico para uma infecção generalizada sempre engana alguns por algum tempo.

Pense como não seria se se criminalizasse o aborto paterno e o ato médico relacionado em um nível mais grave do que a atual sanção destinada apenas às mulheres. Se o Estado for, como de praxe, ineficiente dentro dessa hipótese, ao menos aumenta-se a pressão social que tende a criar um fluxo migratório mais robusto para a postura Auxiliadora por parte de TODOS NÓS. Já se o Estado melhorar alguma coisa, ainda assim, é melhor que essa eficiência a maior seja nessa tripla criminalização do que na plena descriminalização. Faça alguns experimentos mentais. É indispensável.

Há os que preferem que os crimes contra as Leis de Deus não o sejam perante os homens. Há também os que entendem mais razoável que se algo é crime na Leis Divinas, não é errado que seja também no plano material. Por fim, existem aqueles que abraçam a opção da descriminalização dos crimes divinos junto do homens, mas isso só quando ninguém pensar o mal. Eu vejo essas três vertentes numa ordem cronológica. De progresso.

Espiritismo não proíbe nada. Explica as causas, as consequências e os porquês. Cada um delibera como entende. Ser coerente é outra história…

[1] Por questão de transparência intelectual e, como diriam uns advogados que me divertem, amor ao debate, preciso comentar que a resposta a tal pergunta veio de um tal de Dr. XAVIER – Revista Espírita de MARÇO DE 1858. Dr. Xavier tinha sido um médico e se apresentou como um espírito infeliz.
[2] Eu mesmo ainda sou muito mais material do que espiritual em se tratando, por exemplo de alimentação. E como nem me esforço para mudar, fica bem forçado me entender como espírita quando trucidando um pedaço de picanha. Sejamos coerentes.
[3] Ao contrário do “não bom senso”, avalio que criticar algo de esquerda não implica, necessariamente ser de direita. Pior ainda, seria tentar enclausurar a Doutrina Espírita num ou noutro lado desse cabo de guerra. Já dei provas disso em outro texto. O Espiritismo, penso eu, tem sim pontos em comum com as vantagens dos dois lados. Contudo, encontra-se em um patamar mais elevado. É tridimensional enquanto essa ladainha é linear. Seu professor de História e seu amigo que cita Misses são meros gravetos perto da Filosofia Espírita.

 

Um comentário em “Pode um espírita ser a favor da descriminalização do aborto?

  1. Boa argumentação. Concordo que a Doutrina ditada pelos espíritos e codificada por Kardec: “o aborto provocado é crime perante as leis divinas”. Quanto à questão “M”, creio que investir na conscientização, para que homens e mulheres usem preservativos, o que evitaria tanto a concepção indesejada quanto as doenças “DST”s, seria a melhor alternativa.
    Quanto dinheiro público gasto em uma discussão no STF, que ao meu ver, é usurpação de competência, que poderia ser investido em escola de base, em esportes e cultura para as crianças, que ocupadas e bem orientadas, não sairiam por aí se prostituindo (esse último parágrafo eu dirigiria a quem defende a legalização do aborto, gastando-se mais dinheiro público), haja vista que não pensam na falta de estrutura psicológica e econômica em que vivem as adolescentes pobre de nosso País.

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