(2 minutos minutos – Rafael Martins)

“O impacto econômico e social da paralisação das obras públicas”. O título de um recente estudo elaborado pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção – [1]) é bonito e quase poético. Contudo, em grande parte imprestável [2], especialmente para quem não sofre de miopia contextual severa [3].

Tal patologia, presente em conversas de bar e muito mais nos redutos acadêmicos, diz respeito à omissão de perguntas especialmente relevantes quando se está a analisar algum problema. Por conta disso, muitas linhas vão ser paridas na análise de um efeito sobre outro efeito para uma origem em comum relevante e ignorada.

No caso em apreço, a CBIC tentou por vários caminhos quantificar o impacto no PIB da paralisação das obras públicas. Só que – e agora vem o embaçamento que atesta a cegueira para qualquer coisa além do próprio estudo – isso ficou bastante capenga ao se ignorar completamente o papel da corrupção no setor de infraestrutura do país, no que tange à aludida paralisação.

Afinal, quem sabe seria importante saber a vantagem – no caso de acolhida as decisões de órgãos de controle [4] – de se paralisar obras que mais representam a fonte de propina e fabricação de superfaturamento? Que retroalimentam indefinidamente a própria corrupção, a qual por sua vez agrega pesadas ineficiências em tudo o que toca?

Ou, dentro da terminologia do próprio estudo, qual seria o multiplicador de investimento de R$ 1 milhão de propina para um partido político vindo de uma obra superfaturada (ainda que entregue)? Quantas besteiras não daria para ser fazer com esse dano redirecionado a um propósito ilícito? Agora pense nisso por dez anos e vindo de várias obras bilionárias e alimentando praticamente todo um Congresso. Foi o que ocorreu e que não coube na memória de curto prazo ou nos critérios para análise de custo-benefício do estudo realizado pela CBIC.

A negligência do estudo para com essa realidade – já bastante escancarada após a Operação Lava Jato – traz embutida a premissa de que os problemas que justificam ou explicam as paralisações nada tem com a corrupção, Isso tornaria esses vários empreendimentos obras imaculadas, afetadas tão somente por erros técnicos, longe da má-fé inerente aos esquemas cartelizados descortinados.

Espera-se que os resultados aqui apresentados também ensejem novos debates, análises e abordagens do problema e possíveis soluções.” A frase final do estudo é um desfecho quase consolador para quem quer atuar sobre um problema ignorando a sua origem,  dispensando os óculos que permitiriam identificar onde e como atuar.

Haja fé.

[1] Link – https://cbic.org.br/wp-content/uploads/2018/06/Impacto_Economico_das_Obras_Paralisadas.pdf
[2] Eufemismo. Sarcasmo, Ironia. Você escolhe.
[3] sofro da versão severa apenas em termos biológicos. Assim espero.
[4] Tudo o que se diz no estudo sobre órgãos de controle quando se discorre sobre as causas das paralisações é: “… e a ação dos órgãos de Fiscalização e Controle, voltadas de maneira excessiva aos aspectos de “legalidade operacional”, sem ponderar eficiência e consequência de suas determinações (ou recomendações, como preferem). Nessa parte, faltam números aos condecorados pesquisadores. Equiparam-se a advogados tergiversando em tese e sem qualquer substrato quantitativo.

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