(3 min – Rafael Martins)

O inferno está cheio de boas intenções. Isso seria a sabedoria popular. Mas o que a Doutrina Espírita teria a dizer sobre tal sabedoria? Ou melhor, qual seria a influência das intenções por detrás dos nossos atos?

Em O Livro dos Espíritos, não há a menor dúvida sobre as implicações de um eventual “foi sem querer querendo“. De forma mais direta, há uma clareza expressiva quanto à importância do gerúndio na assertiva do Chaves.

O ditado popular carrega em si a ideia de alguém que ludibriou encarnados com boas intenções aparentes para ter, em paragens mais tórridas [1], as reais intenções reveladas perante desencarnados.

Sob o prisma do pensamento espírita, até que ponto a real natureza das nossas intenções contribuiria para aproximar ou afastar consciências no Mundo Espiritual?

No embalo da Copa do Mundo, vale dizer, a regra é clara: bola na mão é diferente de mão na bola. Na primeira, segue o jogo. Na segunda, a intenção em parar o jogo caracterizaria uma falta [2].

No Direito – já que o país com mais taças de campeão é também o país que mais forma advogados no mundo – crime culposo e doloso são, regra geral, diferenciados pela intenção ou não do ato. Desse modo, caberia aos julgadores distinguir se foi “querendo”, “sem querer querendo [3]”, ou simplesmente “sem querer”.

Há ainda na Medicina o curioso fenômeno da iatrogenia, patologia associada à intervenção de um médico – a princípio bem intencionado. Entenda-se aqui que se a pessoa ficasse em casa e não fosse ao hospital ela se curaria dentro das possibilidades de recuperação do próprio organismo. Como os trabalhadores de branco são pagos para agir e não para não agir – ainda que isso seja o correto – há uma pressão econômica e psicológica para uma postura comissiva. Contudo, isso pode ser o fim de uma carreira e de uma vida.

Minha intenção até aqui não foi aprisioná-los em exemplos mundanos, mas antes, privilegiar, por meio de um filtro natural, os que carregam o real ensejo de questionar, duvidar, refletir, mudar e progredir.

Vejamos então uma pequena amostra sobre intenção colhida de trechos de OLE.

Cada um é recompensado segundo as suas obras, o bem que desejou fazer e a orientação de suas intuições. – 584 -a

A intenção, nisso como em tantas outras coisas, é a regra – 655

658. A prece é agradável a Deus?

– A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, porque a intenção é tudo para Ele.

670. Poderiam os sacrifícios humanos, realizados com intenção piedosa, ter algumas vezes agradado a Deus?

– Não, jamais; mas Deus julga a intenção

Já vos respondi ao dizer que Deus julgaria a intenção, e que o fato em si teria pouca importância para Ele – 672

747. É sempre do mesmo grau a culpabilidade em todos os casos de assassínio?

 – Já o temos dito: Deus é justo, julga mais pela intenção do que pelo fato.

949. O suicídio é perdoável quando tem por fim impedir que a vergonha envolva os filhos ou a família?

– Aquele que assim age não procede bem, mas acredita que sim e Deus levará em conta a sua intenção, porque será uma expiação que a si mesmo se impôs. Ele atenua a sua falta pela intenção, mas nem por isso deixa de cometer uma falta.

951. O sacrifício da vida não é às vezes meritório, quando tem por fim salvar a de outros ou ser útil aos semelhantes?

– Isso é sublime, de acordo com a intenção, e o sacrifício da vida não é então um suicídio.

954. Uma imprudência que compromete a vida sem necessidade é repreensível?

– Não há culpabilidade quando não há a intenção ou a consciência positiva de fazer o mal.

(com adaptações)

Compulsando-se cada um dos exemplos trazidos, e ficará claro o protagonismo que a real intenção que portamos tem. Isso em tudo. Logo, vale pensar duas vezes antes de julgar alguém que tente se defender usando o escudo das “boas intenções”.

Melhor do que o juiz com apito e com martelo, será sempre o tribunal da consciência de cada um.

Que possamos melhorar “com querer querendo“.

[1] Na Doutrina Espírita não há inferno. Não há penas eternas. Não há um lugar específico para sofrimento. Toda a movimentação de seres no espaço se dá por sintonia dos pensamentos bons ou maus que carregam.
[2] Na prática, depende da competência do juiz, do VAR, da torcida, do salário do juiz, do placar, do tempo da partida e, finalmente, da intenção de quem apita.
[3] No Direito, dá-se o nome de dolo eventual.

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