(3 minutos – Guilherme Costa)

Hoje acordei com o coração cheio, cheio de saudade, não sei explicar direito. Preste atenção, eu disse coração, não meu peito.

Acredito que saudade é um sentimento genuíno do amor que plantaram em você e apenas floresceu.

Hoje acordei com saudade do meu futebol.

Comecei a ver algumas reportagens da seleção, a história de cada jogador, as coisas que cada um passou e veio um filme na minha cabeça. Lembrei da sensação de prazer que tinha ao jogar, da resenha depois, da tensão de campeonato… Era BOM DEMAIS.

Minha ideia com esse texto não é de tristeza, não quero que você leia e pense: Coitado, ele está tetraplégico agora!

Segue meu raciocínio que você vai entender esse desabafo.

É muita falta do que fazer você querer brincar de ser Deus. Deixe-me explicar, sempre me perguntam: Se você pudesse voltar a atrás e tivesse poder de escolha, escolheria voltar a andar ou a medalha paralímpica? Outra pergunta que me fazem: onde você acha que estaria se não tivesse sofrido o acidente?
Não consigo responder nenhuma dessas perguntas porque elas se encontram no mundo ilusório do “se”.

Como é perigoso esse mundo! Lógico que ficaria muito feliz se voltasse a andar, mas afirmo para todos vocês, estou muito feliz sendo tetraplégico. Tudo aquilo que vivi nessa trajetória até agora foi em função disso. Os títulos que ganhei, as experiências que acumulei, os países que conheci e principalmente o homem que me tornei. Tudo no seu devido lugar. Estou onde estou por conta da bola de ping pong e não pela bola de futebol.

Hoje sou o melhor da minha categoria no Brasil, só tem 11 pessoas no ranking mundial na minha frente e sou o primeiro medalhista paralímpico da história do meu amado Amazonas. Não era falsa modéstia, mas realmente eu não valorizava tudo o que construí na minha carreira. Sabe porque?
As vezes sentimos uma síndrome que apelidei de síndrome de vira lata.

Olhava no espelho e via apenas mais um. Talvez por culpa do sistema. Talvez algum trauma de ter sofrido o acidente muito cedo. Talvez só insegurança. Quem sabe problema de auto estima. Agora, encontrando ou não a resposta do porquê, pergunto outra coisa para vocês, para que fazer tudo o que fiz?
Esse é o grande “x” da questão. De que adiantaria ter conquistado isso tudo sem um propósito maior?

Os grandes da seleção hoje criaram projetos para perpetuar sua história através dos que pequenos que estão se formando. Eu gostaria de ter um projeto maior, mas tenho o vai curupira para me ajudar com esse legado.

Utilizar isso tudo que acumulei em prol dos outros que estão iniciando seu caminho. Olhar no fundo dos olhos e dizer: Agradeça seu passado, irmão, independente do que aconteceu lá, você só é esse fodão que é hoje por conta dele. Agora foca no que você faz hoje, para garantir um futuro digno amanhã.
Estou escrevendo porque vi que a maioria dos jogadores da seleção de futebol tem a minha idade, logo seria a minha copa do mundo.

Saber disso me lembrou como era jogar futebol e me deu saudade. Viajo pensando como deve ser a concentração, o discurso antes dos jogos, as conversas de bastidores, os problemas de grupo e por aí vai. Não sei dizer se estaria ou não na seleção de futebol, mas sei que sou teimoso e persistente demais pra me contentar com pouco. Sei que hoje valorizo minhas conquistas e que tenho medalha na mesma olimpíada que o Neymar. A torcida que estava no maracanã naquela final é a mesma torcida que estava no Rio Centro no dia 17 de setembro de 2016.

E esse ano é ano de mundial de futebol e ano de mundial de Tênis de mesa.
Finalizo meu texto o dedicando a dois personagens: aos meus companheiros de seleção, seja qual for a modalidade, sinta orgulho de vestir essa camisa e trabalhe em dobro para honrar essa oportunidade.

Em segundo, não menos importante, a você, cidadão do cotidiano. Cara, olha pra trás, todos temos um livro lindo de vida, valorize isso. Não é o Gui quem fala agora, mas o seu passado. Sinta saudade de mim, pelo o que vivemos juntos, mas lembre-se sempre de fazer algo lindo no futuro por tudo o que vivemos.

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