(3 minutos – Rafael Martins)

E não tem quase nada a ver com a tiazona doida do saudoso “Sai de baixo”, mas quem sabe com sua filha. Em vez disso, por agora pense simplesmente em alguém que quando a abre a boca pra falar do futuro que vê, só encontra ouvidos moucos, por conta de uma maldição imposta por um deus qualquer que deu um tilt passional e decidiu retirar toda a credibilidade da nossa futuróloga. [1] Ou seja, uma profetisa que poderia ser muda, já que ninguém acreditaria jamais em suas previsões. Pobre Cassandra.

Um bom teste para o poder dessa maldição seria colocar a tal da Cassandra para falar das perspectivas de redução da corrupção no Brasil.

Seria interessante ver o que prevaleceria: se a descrença no sistema que perpetua a roubalheira ou se a crença na efetividade da maldição. Isso, é claro, assumindo que ouviríamos uma resposta do tipo: “vai melhorar tão cedo não...”

Ou seja, se a linha do horizonte trouxer notícias boas quando a Cassandra apertar as vistas apontando pro Congresso, muitos, naturalmente, duvidariam disso, e seria um mais do mesmo só demonstrando a inércia monstruosa relativa à corrupção. Cassandra teria menos moral que a Mãe Dináh no final da carreira. [2]

Agora, se ela revelar algumas gerações com políticos do mesmo naipe de hoje, acompanhados dos escândalos do “sempre” que conhecemos, seria interessante ver a mística que não seria demandada para manter o descrédito na profetisa.

Para fugir dessa queda de braço entre feitiços mitológicos e corrupção sem jeitinho, se eu fosse a Cassandra, procuraria me inteirar sobre o que tem ocorrido no presente.

Um aperitivo. Compare você mesmo essas duas colocações:

É crítica recorrente às instituições encarregadas da prevenção e investigação de crimes a falta de adequada cooperação e compartilhamento de informações. Frases como “o Estado desorganizado contra o crime organizado” tornaram-se até mesmo clássicas. A cooperação entre as diversas instituições públicas, com o compartilhamento das informações, é um objetivo político válido e que se impõe caso se pretenda alguma eficácia na investigação e persecução de crimes complexos, como os crimes de colarinho branco ou os crimes praticados por organizações criminosas.

Agora, a segunda:

A ressalva da utilização da prova contra os colaboradores eleva-se como medida de fortalecimento do instituto da colaboração premiada. O interesse público, de um lado, exige o compartilhamento das provas para as esferas civil e administrativa. De outro, o instituto exige proteção da situação de colaboradores contra sanções excessivas de outros órgãos públicos, e proteção de seu “propósito principal”, que se afigura como forma de “obter provas em processos criminais”. Referidas proteções asseguram incentivo real para que as colaborações alcancem o fim público por elas colimado.

Estas obrigações e compromissos pressupõem que, em termos de atividade probatória, seja respeitada de forma absoluta a vedação da utilização de provas contra o colaborador. A lógica da adesão é mecanismo de solução para assegurar a necessária transversalidade da leniência, mas, em hipótese alguma, haverá celebração de acordo com a possibilidade de extração de efeitos sancionatórios contra o colaborador, a partir da conduta processual cooperativa.

O único problema entre as duas transcrições é que, embora seus autores [3] comunguem das mesmas ideias, a última é mais recente.

 

Se você não teve saco para se desvencilhar das transcrições acima, entenda que a modernidade tem substituído a ética pelo juridiquês [4].

Mas vou testar sua paciência só com mais uma transcrição [5]:

No primeiro momento, concede-se o compartilhamento para se desconstruir a lógica do Crime Organizado contra o Estado Desorganizado. Agora, sob o confortável e onipresente argumento de se proteger os acordos de leniência, fecha a porta para trás e para a frente para que as leniências possam ser mantidas sob premissas que assegurem, com segurança jurídica, uma atuação perpetuamente desorganizada do Estado. O colaborador não sairá pior do que o não colaborador, mas também sairá muito melhor do que o não infrator.[6]

Só mesmo a Magda, essa do Sai de Baixo, para manter a validade da maldição ao ouvir a Cassandra mitológica sobre a corrupção tupiniquim.

Eu mesmo preferia o Ribamar.

 

[1] Se quiser aumentar sua cultura sobre essa Cassandra nem tão popular é só clicar aqui.
[2] Também conhecida como Benedicta Finazza e que traz no seu currículo a previsão da vitória do piloto de Fórmula-1 Ayrton Senna, no campeonato de 1994. Sem mais.
[3] Procuradores do MPF que atuam na Força Tarefa da Operação Lava Jato e o Juiz da 13a Vara Federal de Curitiba
[4] Um pensamento certeiro de Nassim Taleb em seu livro “Antifrágil”
[5] Quem escreveu isso fui eu mesmo. Coloquei no esquema de transcrição só pra parear, também no formato, com o MPF e Justiça Federal
[6] Uma análise mais formal dessa ideia tão simples quanto ignorada por parte do Poder Público pode ser vista nesse artigo – https://econpolrg.files.wordpress.com/2018/07/eprg-wp-2018-83.pdf

2 comentários em “Cassandra Esperançosa?

  1. Grande rafael, atacando de blogueiro! bela iniciativa. Se me permite vou fazer minhas observações, espero que construtivas, sobre o que escreveu.

    Gostei das referências, especialmente o exemplo da cassandra achei muito pertinente, alem de a contextualização da personagem mitológica com a personagem contemporânea de mesmo nome pra puxar a filha dela e o ex-porteiro do arouche foram boas… porem, um pouco confuso. Especialmente no início, talvez melhor seria se começasse já introduzindo a sua ideia e deixasse as cassandras para o desenrolar/meio do texto (se bem me lembro das aulas de redação, as ideias/objetivos do texto deveriam ser expostos logo nas primeiras linhas do texto).

    Especialmente essa parte: Somente a Magda pra manter a validade da <> (E essa a maldição correto?), ao ouvir a futuróloga sobre a corrupção.
    No texto destaca que os corruptos que aceitam o mecanismo de delação saem melhores do que aqueles que nunca praticaram crimes, logo meus ouvidos continuam moucos pra futuróloga que me disser que diminuirá os crimes.

    Um abraço, sucesso

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