(7 minutos – Rafael Martins)

Quando eu estava na sétima série do Colégio Militar, testemunhei uma micro explosão de ego – entre adultos de barba feita – por conta de um problema envolvendo continências e desrespeito à hierarquia, algo altamente relevante dentro de uma instituição militar. Como filho de civis, eu fiquei segurando o riso frente ao que considerava uma discussão inútil. Anos depois eu quase entendi porque aquilo continuava sem sentido na minha cabeça [1]. Já em termos de Doutrina Espírita, é da maior utilidade se discutir a hierarquia, mas das ideias. Do fundo, nunca da forma.

Pela via de um exemplo mundano, seria como tentar espelhar o que se tem no Direito – Constituição Federal, Súmulas do STF, Leis Ordinárias, jurisprudência, doutrina, apostilas para concursos rsrs, etc – para a Doutrina Espírita.

Comecemos então com as “cláusulas pétreas” dessa Ciência, Filosofia e Religião trazida no final do século XIX.

Primeiro vem o CUEE.

Isso deve ou deveria ser familiar a qualquer espírita ante a importância que guarda. É a mais “alta patente” no que se refere ao Espiritismo. Por que? Trata-se do Controle Universal do Ensino dos Espíritos. No caso, Espíritos Superiores.

Imagine se você quisesse aprender a se tornar um exímio cobrador de falta porque está acima do peso, mas quer ser decisivo nas peladas do seu time, e tivesse no youtube um vídeo trazendo as técnicas explicadas por Juninho Pernambucano, Messi, Zico, Marcelinho Carioca. Agora substitua “chutar uma bola no ângulo” por sorver os mais altos conceitos de moralidade e filosofia. Por conta disso, os novos “boleiros” são Sócrates, São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luiz, O Espírito da Verdade, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, entre outros. [2]

Kardec coletou mensagens de mais de mil centros espíritas analisando se havia uma concordância lógica. Tal critério norteou a elaboração das Obras Básicas. O Brasil tem perto de treze mil centros espíritas [3]. Imagina o que não daria para se fazer com essa massa de dados em potencial?

É indispensável colocar aqui que o “bom senso encarnado – Kardec” assentou que o critério para qualquer pedacinho de conhecimento adentrar na Doutrina Espírita seria o CUEE. Qualquer “novidade” que aparecesse por aí e não fosse controlada pela “universalidade” deveria ser encarada nem como certa, nem como errada, mas, antes de tudo, como uma simples opinião de um espírito (encarnado ou não).[4]

Entretanto, há duas importantes exceções que Kardec enfatizou. A primeira diz respeito às mensagens cujo conteúdo seja estritamente moral, o que dispensaria esse rigor do CUEE.

(…)

Daí resulta que, com relação a tudo o que seja fora do âmbito do ensino exclusivamente moral, as revelações que cada um possa receber terão caráter individual, sem cunho de autenticidade; que devem ser consideradas opiniões pessoais de tal ou qual Espírito e que imprudente fora aceitá-las e propagá-las levianamente como verdades absolutas. [KARDEC – Introdução de OESE]

Cabe reparar que é nessa brecha que grassam a grande maioria das publicações que marcam o movimento espírita brasileiro, com maior destaque à produção vinda do Espírito Emmanuel por meio do médium Chico Xavier.

Já a segunda exceção, está relacionada à Ciência dos Homens.

“Se algum dia a ciência provar que o Espiritismo está errado em determinado ponto, abandone esse ponto, e siga com a ciência – KARDEC

Sim. Se a Ciência demonstrar que o Espiritismo – mesmo quando vindo pelo CUEE – encontra-se em erro, fique com a Ciência. E isso é lindo. É um traço de humildade inerente à grandeza do Espiritismo.

Um exemplo prático é que geração espontânea [questão 46 de OLE] e formação dos planetas via cometas [questão 40 de OLE] foram desconstruídos pela Ciência, de modo que as respostas constantes em OLE, segundo penso, não mais figuram na Doutrina Espírita. Foram, ao menos por mim, abandonadas.

O bacana é que o próprio Kardec foi advertido que médium bom é o que é menos enganado [vide O Livro dos Médiuns]. Além disso, Emmanuel já havia consignado que o propósito da Doutrina Espírita é a transformação moral da humanidade. Logo, combinando essas duas informações, é até esperado que, em algum momento, uma pergunta distante desse objetivo (tema astronomia) e vinda de médiuns naturalmente falíveis pudesse trazer respostas merecedoras de correções. O mais relevante, contudo, é que quando se tratam dos princípios da Doutrina Espírita, não há nada que tenha sido contradito cientificamente. Pelo contrário, os pesquisadores têm caminhado a passos de formiga preguiçosa, mas têm, para corroborar as teses dessa Ciência Filosófica de profundas implicações morais.

Logo, de certa forma, antes do CUEE vem a Ciência e o CUEE não precisa ser aplicado às mensagens de cunho moral. E a nossa razão cabe em tudo, para que sorvamos o que convém [5].

Certo… e depois da Ciência, do CUEE e das palavras estritamente de temática moral, o que vem como critério? Como se postar ante a revoada de Espírito que tá por aí dando seu recado? Onde eu coloco eles em relação ao que é Doutrina Espírita?

Pega a ampulheta e coloque-os de lado.

Depois vira a ampulheta mais uma vez. Sem pressa. Dê uma volta no parque. Medite. Viaje. Faça novas amizades, etc.

E só então, após se preocupar primeiro em se esforçar para melhorar no que já está “pacificado” na Doutrina Espírita (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, etc) é que fará sentido você alocar seu precioso tempo para decidir se algo é espiritualista ou também espírita. Até lá, segundo minha lógica, use caixinhas distintas.

O próprio Emmanuel – guia espiritual de uma criatura produtiva e caridosa como Chico Xavier – disse para ficarmos com Kardec e com Jesus [6] caso alguma mensagem dele os contradissesse.

Se é assim, o que fazer com a questão da evocação dos espíritos? Sim… veja as transcrições abaixo e me diga o resultado em se empregando o critério do ex-senador romano.

“Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum.

Emmanuel em O Consolador

“Os Espíritos podem comunicar-se espontaneamente ou acudir ao nosso chamado, isto é, vir por evocação. Há quem julgue não ser conveniente evocá-los, porque nem sempre há certeza de que o Espírito comunicante seja o que foi evocado. Os que assim pensam propõem que os Espíritos se comuniquem sempre espontaneamente, porque, agindo dessa forma, provariam melhor sua identidade, o que é um erro. O fato de se evocar ou deixar que a comunicação se faça espontaneamente nada tem a ver com a identificação do comunicante, porque pode ocorrer mistificação tanto num caso quanto noutro.”

Kardec em O Livro dos Médiuns

E agora José?

Agora nada. Vou comentar essa treta noutra ocasião.

Do que expus até aqui, entendo que muitas vezes, diversos espíritos estão dizendo de uma outra forma o que já se disse por aí sob a batuta do CUEE. Outras tantas, tratando de uma novidade, demandarão de nós reserva, análise e paciência para confirmação vinda de outros espíritos ou mesmo da ciência. Divulgar apressadamente como se Doutrina Espírita fosse é evidência de uma ansiedade irracional – ainda mais para quem se considera imortal – e que pode afetar a credibilidade da Doutrina.

Quer um exemplo concreto disso? Se você acha que crianças índigo “tem base doutrinária”, dá uma lida nesse link aqui [7]. Depois, quem sabe você possa entender sozinho porque Espiritismo é uma filosofia focada no fundo, pouco importando a forma, os termos empregados. Que a gente se entenda e não se complique adotando conceitos de origem duvidosa. Ou pior, sem pesquisar nada quanto à origem…

Outra armadilha clássica é querer validar precipitadamente questões Espíritas com a Física Quântica. Se você está com preguiça o que seria inteligente a ser feito para averiguar razoavelmente isso? Primeiro, procurar a opinião de um físico espírita. Depois a de um físico não espírita (para retirar algum viés). Depois disso, bem…nem precisa de um depois. Raul Teixeira (palestrante espírita, licenciado em Física, Mestre e Doutor em Educação) assim se expressou:

Lavras 24 Horas: A Física Quântica realmente explica o Espiritismo?
Raul Teixeira: Tudo isso é uma fanfarronice. Não acho. É, assim. Não se esqueça que eu sou físico. E sou espírita. Então eu não acho. Estou dizendo o que é. O que acontece é que os religiosos de maneira geral se apropriam de tudo que acham simpático na Ciência, mesmo que eles não entendam. Então eles acharam que Física Quântica prova o Espírito (a existência do). Enquanto os físicos quânticos estão discutindo ainda os rumos da Física Quântica, os espíritas já se apoderaram, são donos dessa verdade. Então vemos que alguma coisa está errada. Não pode ser com os físicos, porque essa é uma área da Física. É com os espíritas. Então quanto menos a pessoa sabe das coisas mais ela fala a respeito. Quando a gente vai sabendo mais a gente passa a ter cuidados ao falar. Veja como todo mundo receita remédio. Porque não é médico, não entende de Medicina. Os médicos tem cuidado. Eles não receitam remédio sem examinar, sem saber o por quê. Quanto mais se sabe mais cuidado tem. Quanto menos se sabe mais a vontade as coisas ficam. Então não existe nenhuma relação de Física Quântica com o Espiritismo. A relação que existe entre Física Quântica e Espiritismo é a mesma que existe entre todos os fenômenos da Natureza e o Espírito.

Sem mais por enquanto.

E os romances que se multiplicam quase como uma geração espontânea de meninos ao redor de mesa com brigadeiro [8]?

Naquilo que contrariar o Espiritismo, use o seu bom senso e silencie para não propagar ou funde uma nova religião caso tenha uma fé danada que aquilo é uma baita verdade.

Já naquilo que não for de cunho moral (novidades científicas ou filosóficas) e não tratado pelas obras codificadas por Kardec, guarde para si, já que ninguém aqui é jornalista sensacionalista de temáticas Espiritualistas. Se não resistir e quiser comentar, que seja com a mente aberta, inclusive para mudar de opinião.

E aliás, a ciência compete ao homem desenvolver e não ficar mendigando bizu de Espírito de escol.

Além disso, é um bafáfá danado em relação a quem foi quem, previsões cheias de caos e por aí vai. A ciência explica porque nossa cabecinha, em geral, gosta mais de uma narrativa bem entrelaçada do que de um livro de perguntas e respostas, mas isso também será assunto para outro post. Bem, é como nosso cérebro funciona quando no piloto automático. Cabe-nos fazer uma forcinha a mais de modo a não priorizar tramas literárias perante a dúvida.

E, por quase fim, viriam os palestrantes espíritas, reles sargentos, mas com voz no palanque dessa Doutrina que convida a todos a se amarem e se instruírem. Entendo que tais oradores devem deixar muito claro quando algo é sua opinião, fruto do seu livre pensar preconizado pelo Espiritismo. Tô cansado de ver os donos da palavra contarem historinha instigante de um livro qualquer sem o cuidado de deixar claro que aquilo não é, necessariamente, Espiritismo.

Agora, por fim, e permeando tudo o que foi dito antes é você. Use sua razão e sua fé. Fé raciocinada. Tão simples e trabalhoso assim.

[1] Há coisas no Exército que eu entendi que não fazem sentido. Ou então encare só uma frase de sarcasmo vazio que inventei.
[2] consta essa galera lá nos prolegômenos de O Livro dos Espíritos.
[3] http://franzolim.blogspot.com.br/2012/09/quantidade-de-centros-espiritas-no.html – Nesse blog há várias outras pesquisas interessantes sobre os adeptos do Espiritismo.
[4] está bem mastigadinha tal ideia lá na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
[5] Fica a dica dos Apóstolo dos Gentios.
[6] um é o “bom senso encarnado” e o outro o tipo mais perfeito que já passou pela Terra (vide questão 625 de O Livro dos Espíritos). Logo, é bem provável que seja “perfeitamente aderente ao bom senso” essa dica de Emmanuel.
[7] não duvido, pelas minhas parcas observações, que estejam encarnando uma galerinha diferenciada. Contudo, a atribuição do nome de “índigo” a tal classe de espíritos queima o filme da Doutrina Espírita na medida em que se investiga a origem de tal termo. Prudência sempre.
[8] Nessa geração espontânea eu creio firmemente.

 

2 comentários em “Hierarquia das Ideias Espíritas

  1. Trago aqui reprodução de uma troca de ideias com um amigo relativo ao texto acima:

    AMIGO:
    2 pontos sobre o texto:
    CUEE é um termo que eu não estava familiarizado e agradeço por compartilhar. Já o conhecia na forma literal “Controle Universal do Ensino dos Espíritos”. Observei que você usou a palavra Universalidade ao invés de Universal, em o segundo penso ser mais apropriado.
    Sobre o segundo ponto, me fez refletir sobre o uso do CUEE como premissa para o que temos hoje de obra espírita / comunicação espiritual dita Doutrinária.
    Penso que seja um equívoco coloca o CUEE como como premissa referenciado-o diretamente, pois que assim teríamos dificuldade de validar Autores como Camille Flamarion, Edgar Armond, Leon Denis e outros também nao seriam aceitos como espíritas e pasme: Chico Xavier, Emmanuel, André Luiz também não seriam, o que é um absurdo.
    Entendo que o mais adequado sobre a questão do CUEE é que todas as bases fundamentais do Espiritismo e da Doutrina Espírita já estão dadas nas obras dos Espíritos Superiores recebidas, organizadas e publicadas por Kardec. O que importa, doravante, é seguir essas bases e a partir destas, agora sim usadas como premissas, teríamos uma espécie de CUEE atualizado à qualquer obra espírita / comunicação espiritual, validado como Doutrinário.
    Gostaria de opinião caro irmão.

  2. Ótimo contraponto.
    Eu conheço o site desse argumento e vi tantos outros antes de chegar ao que escrevi
    Eis o que penso. Minha posição atual.

    1. Não implica necessariamente a recusa de uma obra de André Luiz, por exemplo, o fato dela não ter sido chancelada por um Cuee ou algo o que o valha. O ponto que Kardec anota no Evangelho (como pus no texto) e tbm na Genese e em diversos pontos da Revista Espirita (após troca de ideias mediante evocação com espíritos como São Luís) é que se trata de uma opinião pendente de validação. A multiplicação de obras não deixa de ser uma oportunidade de checagem de certos pontos.
    Até lá cada um valora como quiser. Eu particularmente considero como “teses espíritas” aquilo que não seja de cunho moral e não tenha passado por algo similar ao cuee. Exatamente como ocorre na astronomia/física onde se têm várias teorias (formuladas matematicamente), entre as quais muitas só são confirmadas dezenas de anos depois. E outras não. E outro tanto segue esperando…Se a astronomia espera porque nós, imortais, seríamos mais ansiosos com a nossa ciência espiritualista? Ou seja, tese de uma ciência é diferente da ciência em si.
    Kardec primou o tratamento de algo que seria um ciência filosófica com profundas implicações morais. Tanto é que na SPEE tinha gente de varias religiões. Daí justifica-se a cautela dele. No Movimento espírita brasileiro o foco maior é na alça religiosa do espiritismo. Nada contra isso. Aliás, entendo isso como o propósito maior de algo que traz como lema o “fora da caridade não há salvação”. Mas isso – viés religioso – explica porque baixou-se a guarda para tal critério (cuee). Dá muito mais trabalho…

    2. Veja que se uma falange de espíritos superiores trouxe uma obra carente de atualização (exemplos que dei sobre geração espontânea e cometas – entre varios outros que existem) o que não poderá acontecer com obras vindas de somente um espírito superior (Emmanuel) ou mesmo de um espírito que, penso eu, não era superior (André Luiz)? É sadio enfrentar isso sem afetação. Não é pelo muito que contribuíram que se pode recepcionar sem análise 100% do que venha a ser compartilhado. Vale relembrar aqui a exceção aquilo que é de cunho exclusivamente moral.

    3. Um exemplo prático. O próprio Edgard na sua obra que tratou sobre os exilados de Capela disse na introdução que seria tudo aquilo uma tese, uma teoria. Daí, no MEB, por conta da falta de análise a tese virou verdade absoluta – talvez de forma precoce. E se outro espírito vier e desacreditar a tese do Edgard? Isso acontece direto nas ciências. Saberemos enfrentar isso sem melindre depois de ter abraçado -talvez antes da hora – certos pontos de vista?
    O outro exemplo de crianças índigo, recepcionado até mesmo pelo Divaldo, consiste numa seita de fascinados do EUA. E isso é fato. O negócio foi ressignificado pra realidade brasileira, mas manteve o termo “índigo”.
    Pra mim e pra vc não faz muita diferença. Agora pra um potencial novo espírita que já conheça ou se preste a pesquisar a origem fará. Pode afetar a credibilidade essa falta de seriedade.

    4. Outro exemplo é que entre a primeira é a segunda versão de OLE algumas respostas mudaram completamente. Que bom! Kardec ponderou e se atualizou. Desde o início entendeu a dinamicidade inerente à DE.
    Exemplo: momento da junção do espírito com o corpo antes era “no nascimento” e depois passou para “na concepção”. Veja as implicações que algo desse naipe não traria para questões como aborto….O fato retratado nesse ponto não deixa de ser um alerta para o cuidado que devemos ter atualmente, ainda mais perante a enxurrada de informações…

    Em suma, fico simultaneamente com Paulo e seu discípulo, Erasto. Vejo de tudo, fico com o que convém, e me esforço para valorizar o silêncio e o tempo. E para fins de DE mais vale rejeitar dez verdades do que aceitar uma mentira.

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