(10 minutos) Rafael Martins

“Certa vez, um homem perdeu uma abotoadura com diamante no imenso mar azul, e vinte anos depois, no dia exato, aparentemente uma sexta-feira, ele estava comendo um grande peixe, mas não havia nenhum diamante dentro. É isso o que eu gosto nas coincidências.” É assim que escreve Vladimir Nabokov em seu romance Riso no escuro.[1]

Coincidência, independente de haver algum peixe com um diamante nas entranhas, seria um fenômeno sem causa aparente. Ou seja, algo intrigante, surpreendente que acontece e cuja causa não apareceu. A tirada do escritor já revela como nossa percepção é meio manca, enviesada, como já construímos uma posição de forma açodada, como nossa cabecinha procura padrões, como o contra-intuitivo desmonta nossas convicções. E olha que não foram necessárias nem 5 linhas do romancista.

Tentarei especular se, por um acaso, a Feiticeira Escarlate  – uma x-men que controla as probabilidades — teria alguma chance de conciliar seus poderes com a Filosofia Espírita. Mais sisudamente falando, colocarei minha visão sobre como a Doutrina Espírita lida com coincidências, acasos e seus primos, tais como sincronicidade, aleatoridade, serendipidade e outros palavrões que mais parecem poderes de cartas de RPG.

Enquanto na coincidência a causa não apareceu, na sincronicidade – termo que veio lá de Carl Jung – há uma simultaneidade de eventos no tempo e no espaço que não pode ser explicada pelo acaso. Se você repara que os quatro últimos números do seu CPF são idênticos aos da placa do seu carro, há coincidência estaria em perceber isso. Algo mais sutil. Contudo, tentar usar Doutrina Espírita aqui parece ser perda de tempo para esta última.

Mas será que as definições acima, continuam a valer quando os exemplos ficam mais sérios e tratam de vida e morte da gente? Ou seriam conceitos só aplicáveis para frivolidades? Segundo a Lei de Serialidade, proferida por um cara excêntrico chamado Kammerer, quem procura coincidências as encontra, e isso em qualquer contexto.

Se um terrorista atira aleatoriamente pelo seu livre-arbítrio, mas escravo das Leis da Física, movimentando seu rifle feito um “noob de CS”, teriam todas as balas efeitos igualmente aleatórios segundo as Leis Divinas? Se uma pessoa morre porque foi alvejada na cabeça não poderia ser um acaso? E se fossem 100 mortas? Essa variação no quantitativo é pra influenciar na minha opinião sobre o acaso?

Vamos tentar algo mais simples? Jogar dados não viciados tem um resultado aleatório, certo?

Não.

Não para o físico Rober Oerter que assenta o seguinte:

Jogar dados não é inerentemente aleatório; o resultado só parece aleatório por causa da nossa falta de conhecimento em relação a pequenos detalhes, a variável oculta (como o ângulo de lançamento e o atrito) que determina o resultado da jogada

Depois que fala parece óbvio, certo? Mas se você duvida do argumento acima é só ligar para os pesquisadores Diaconis, Holmes e Montgomery que construíram uma máquina de cara ou coroa com os resultados 100% previsíveis. O lançamento de moeda saiu dos livros de Matemática e migrou para os de Física.

De outro lado, a Matemática contra-ataca com a Lei Fraca dos Grandes Números. Segundo essa lei bem intuitiva, um evento extremamente raro possui uma possibilidade razoavelmente alta de ocorrer ao menos uma vez se o número de tentativas é suficientemente grande. [2]

Será que daria pra estender isso para: há uma chance alta de ao menos em uma vida uma bala perdida (ou evento similar) encontrar você. Como ainda temos uma estrada boa em termos de número de reencarnações, há uma amostra enorme. Só que também haveria uma chance de você ganhar na loteria em alguma vida. Seria isso uma exemplificação da serendipidade – eventos ocorridos ao acaso de maneira feliz e benéfica? Ou pra fugir do acaso só mesmo com uma mãozinha da Feiticeira Escarlate?

O fato é que se ainda nos atrapalhamos com dados e moedas, que dirá quando da aplicação da Estatística em eventos da Natureza, algo mais próximo do Divino. A sismologia (lembrar que balas perdidas tem uma semelhança probabilística com terremotos no que diz respeito a estar no lugar errado e hora errada ) traz um quê de sabedoria ao mostrar o atual nível de ignorância:

[Não temos] capacidade de prever terremotos em escalas de tempo menores do que cem anos, e dispomos apenas de métodos rudimentares para avaliar riscos de terremoto. (…) Nossa melhor resposta parece ser mostrar humildade diante da complexidade da natureza, reconhecer o que conhecemos e o que não conhecemos, utilizar técnicas estatísticas para avaliar o que podemos afirmar com graus divergentes de confiança dos dados e desenvolver novas técnicas para nos sairmos melhor – An Introduction to Seismology, Earthquakes, and Earth Structure – (Hoboken, 2002)

Agora imagina o quão diminuta não seria o nosso “saber matemático e físico” sobre a Lei de Causa e Efeito casos analisemos várias encarnações de um espírito? Algo também Divino, igualmente Natural, mas com um arsenal de variáveis literalmente ocultas. Lembremos do véu do esquecimento. [3]

Depois de todas essa perguntas e poucas respostas (minhas) migremos para os esclarecimentos dos espíritos constantes em OLE que eu achei pertinente ao assunto.

975. Espírito, liberto da matéria, aspira à nova vida corporal, pois que cada existência, se for bem empregada, abrevia um tanto a duração desse suplício. É então que procede à escolha das  provas por meio das quais possa expiar suas faltas. Por que, ficai sabendo, o Espírito sofre por todo o mal que praticou , ou de que foi causa voluntária, por todo o bem que houvera podido fazer e não fez e por todo o mal que decorra de não haver feito o bem.

E ficai sabendo que o oposto (da parte negritada) também é verdadeiro, no sentido de que arcaremos com todas as consequencias positivas de nossas boas ações.

526. Tendo os Espíritos ação sobre a matéria, podem provocar certos efeitos com o fim de produzir um acontecimento? Por exemplo, um homem deve perecer: sobe então a uma escada, esta se quebra ele morre. Foram os Espíritos que fizeram quebrar a escada, para que se cumpra o destino desse homem?

RESPOSTA: É bem verdade que os Espíritos têm influência sobre a matéria, mas para o cumprimento das leis da Natureza e não para as derrogar, fazendo surgir em determinado ponto um acontecimento inesperado e contrário a essas leis. No exemplo que citas, a escada se quebra porque está carunchada ou não era bastante forte para suportar o peso do homem; se estivesse no destino desse homem morrer dessa maneira, eles lhe inspirariam o pensamento de subir na escada deveria quebrar-se com o seu peso, e sua morte se daria por um motivo natural, sem necessidade de um milagre para isso.

853-a. Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não morreremos se a nossa hora não chegou?

RESPOSTA: Não, não morrerás, e tens disso milhares de exemplos. Mas quando chegar a tua hora de partir, nada te livrará. Deus sabe com antecedência qual o gênero de morte por que partirás daqui, e freqüentemente teu Espírito também o sabe, pois isso lhe foi revelado quando fez a escolha desta ou daquela existência

Foi um acidente a morte do infeliz, diria um desavisado. Outra reflexão é pensar se os Espíritos responderiam diferente se a questão não tratasse de uma escada, mas de mil escadas que “se quebram” por aí matando mil pessoas. Troque escadas que não avisam que vão se desmanchar por balas perdidas e avalie se faz algum sentido. A multiplicação da dor nos confunde porque ainda não sabemos lidar com ela.

738-a. Nesses flagelos naturais [grandes catástrofes, atentados terroristas, ou mesmo milhares de escadas podres rsrsr], porém, o homem de bem sucumbe como os perversos; isso é justo?

RESPOSTA: Durante a vida o homem relaciona tudo ao seu corpo, mas após a morte pensa de outra maneira. Como já dissemos: a vida do corpo é um quase nada: um século do vosso mundo é um relâmpago na eternidade. Os sofrimentos que duram alguns dos vossos meses ou dias, nada são. Apenas um ensinamento que vos servirá no futuro. Os Espíritos que preexistem e sobrevivem a tudo formam o mundo real. São eles os filhos de Deus e o objetivo de sua solicitude; os corpos não são mais que disfarces sob os quais aparecem no mundo. Nas grandes calamidades que dizimam os homens eles são como um exército que, durante a guerra, vê os seus uniformes estragados, rotos ou perdidos. O general tem mais cuidado com os soldados do que com as vestes.

E aí? É pra se comparar esse general com Deus? Lembremos que os cuidados de Deus deveriam ser perfeitos para conosco. Kardec não ficou satisfeito e explorou mais esse assunto:

738-b. Mas as vítimas desses flagelos, apesar disso não são vítimas?

RESPOSTA: Se considerássemos a vida no que ela é, e quando a insignificante em relação ao infinito, menos importância lhe daríamos. Essas vítimas terão noutra existência uma larga compensação para os seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem murmurar. Quer a morte se verifique por um flagelo ou por uma causa ordinária, não se pode escapar a ela quando soa a hora da partida (vide também 853): a única diferença é que no primeiro causo parte um número ao mesmo tempo. Se pudéssemos nos elevar pelo pensamento de maneira a abranger toda a Humanidade numa visão única, esses flagelos tão terríveis não nos pareceriam mais do que tempestades passageiras no destino do mundo.

Eu preciso considerar que a questão 738-b ainda remete ao “homem de bem” que é vitimado e não à qualquer um que se deu mal, digamos, com uma bala vinda lá do rifle de um perturbado. Do contrário, se for pra ser aleatório (o evento E suas consequencias), a bala pode acertar um espírito encarnado mais atrasado, que se revoltará quando explicarem pra ele: “Cara, lugar errado e hora errada, dá um lida nessa questão aqui oh….” Assim esse irmão teria sua trajetória mais atrasada do que aquele outro espírito encarnado tão involuído quanto ele que decidiu ficar dentro da loja e não tomou um tiro. Isso parece justo?

Em contraparte – destino irrevogavelmente mapeado não condiz com a questão do livre arbítrio preconizado pela Doutrina Espírita. Mas esse livre-arbítrio é proporcional à evolução. Vixe. Não somos lá muito evoluídos. Portanto, já no “vixe” você deve ter percebido a forma discreta de dizer que temos ainda muito de livre-arbítrio para conquistar.

Penso eu que dos nossos débitos há os que concordamos de expiar nessa vida. Temos provas que já compreendemos como úteis e provas que ficam para depois junto com outros débitos. Você pode frustrar seu planejamento e voltar antes – suicídio ou preguiça mesmo – ou poder superar as expectativas a ponto de as Leis Divinas verem maior serventia em um tempo a mais. Esse raciocínio nos afasta do absoluto determinismo. Há então planejamento+expiação+provas+livre-arbítrio. [4]

Nossa CONSCIÊNCIA é que clamará pelo resgate do mal feito outrora. Nossa Consciência é que nos libertará também de eventuais opções de aprendizado pela DOR que tenham sido contempladas em um planejamento inicial. [5]. Treino é treino. Jogo é jogo.

Pontos decisivos entrariam nesse planejamento? Certamente. Não é qualquer bicuda detonando o dedinho do pé que você vai dizer ser “carma”. Só presta mais atenção ao andar que as Leis da Física e da Biologia o pouparão de uma sinapse de efeitos dolorosos. OLE fala até disso na questão 859. E olha, se foi uma bala perdida de raspão (pseudo bala perdida), toma jeito pra mudar, pois esse é o objetivo almejado conforme se depreende da questão 855 de OLE.

Talvez tudo seja como já apontado no Tao Te Ching – obra do Taoísmo com mais de 2500 mil anos:

A rede celeste é maravilhosamente vasta e envolvente;

Embora com malha larga, nada escapa através dela

Talvez essa malha larga só possa ser sacada com os óculos da humildade e nada desse papo de física, matemática e x-men seja a abordagem verdadeira ao se falar sobre o caso do acaso: “Graças te rendo, meu Pai, Senhor do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos.” (Mateus, 11:25).

Se você é daqueles que não liga para cenários futuros com relacionamentos tendo data determinada para expirar com 99,8% de confiabilidade, algo que faria de nós tipo um pau de enchente com o livre-arbítrio de poder gritar o que quiser até bater com a cabeça e ser carregado pela correnteza, fica sabendo que não por um acaso que você é assim.

No Espiritismo não há acaso e não há fatalidades de cunho moral [6]. O resto pode ser coincidência que eu não ligo [7].

———–.

[1] por uma acaso eu não li todo o Romance do autor. Só li mesmo a parte que trouxe aqui, que fora recortada do Livro “Acaso – Como a Matemática explica as coincidências da vida”.
[2] um interessante debate no movimento espírita onde pode ser aplicado esse raciocínio encontra-se na pergunta 120 de O Livro dos Espíritos. Se Deus cria um gigalhão de espíritos, ao menos uma passaria somente pela fieira da ignorância – sem fazer maldades. Ascenderia assim muito mais rápido. É o que se diz sobre Jesus em “O Consolodor” de Emmanuel. Matematicamente faz sentido.
[3]Essa questão das variáveis ocultas atrapalha o entendimento de Causa e Efeito até mesmo quando estritamente dentro do mundo material. Muitos velhinhos de Novas Hébridas (algum lugar no Pacífico Sul) pregavam, com base em observações, que piolhos contribuíam para a saúde. Depois de muita coceira – penso eu – descobriram que os piolhos em alguns casos também eram capazes de gerar uma febre no hospedeiro. Só que essa febre destruía os próprios piolhos. Logo, os doentes, quando examinados, não tinham piolhos. Só que todos da ilha estavam contaminados. Quais seriam os piolhos de hoje em dia? Outro ponto que preciso abordar aqui é que não desconheço a atual e talvez momentânea existência de eventos acausais na física, na psicologia e em muitas religiões. Contudo, não considero que isso infirme a Lei de Causa e Efeito do Espiritismo. Isso será palco de outro texto.
[4]  Esse somatório seria confirmado ainda pelas questões 851, 856 854 e 975 de O Livro dos Espíritos. Se você chegou até aqui não se frustre pois nessa nota não tenho nada mais a acrescentar de curioso. Vá lá e leia tais questões.
[5] Vê-se que ainda é mais difundido a pedagogia dos cutucões, porque somos teimosos. Um exemplo disso é dado por São Luís na Revista Espírita (Março de 1858) – “Quando um homem passa sobre uma ponte que deve cair, não é um Espírito que o leva a passar ali, é o instinto de seu destino que o conduz a ela.”
[6] NO sentido de que ninguém nasce para ser bandido, mas pode nascer em um meio que incite a violência e ponha o espírito diante da prova de resistir a tal má inclinação. Todavia, espíritos podem ter a vida política já traçada…
[7] “E demais, o que é o acaso. Nada” (OLE questão 8). Se você acabou de ler tudo, inclusive as referências e não viu o porquê da figura, fica tranquilo. Isso não é tão importante.

3 comentários em “Coincidiu de ser um acaso?

  1. Gostei do texto. Só faço uma reflexão. Na programação encantatória são definidas as questões gerais, já os detalhes cabem a nós.
    Então, pode ser que nos prendemos a detalhes e não conseguimos ver o todo.
    Como no livro Francisco de Assis pelo médium João Nunes Maia onde ele fala que a segunda bomba atômica não estava programada. Que as mortes foram maiores do que o plano espiritual estava preparado. Pode ser que quando Jesus fala que seu reino não é deste mundo pode também estar falando sobre um certo limite de controle?

    1. Cada um se prende naquilo que consegue enxergar e sentir..

      Penso que na história trazida por Miramez haja, na verdade, uma curva de probabilidades. Desse modo, a segunda bomba seria menos provável, mas não imprevisível. Se algum espírito relata que não estava programada, isso reflete o espectro de percepção dele dessa curva de probabilidades. Um profeta antevê o evento mais provável, não o determinado a ocorrer. Ou não?
      Curva essa que estaria limitada pela cota de livre arbítrio que a humanidade já tenha alcançado. De outro modo, alegoricamente falando, Deus não disse “eita porra que soltaram outra bomba e agora lascou tudo que nem tinha visto essa possibilidade”.

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