(5 minutos) Rafael Martins

Neste post, vou procurar promover um encontro quase diplomático entre a transformação moral mencionada por Kardec (OESE- O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 17 – Sede Perfeitos – Os Bons Espíritas) e a reforma íntima que campeia no movimento espírita. Por que?

Porque aprendi que há interpretações que afastam essas duas expressões em face de várias críticas à segunda delas (reforma íntima). Tentarei aproximá-las do meu jeito por entender ser inócuo por em guerra tais colocações, tão comuns no meio espírita.

Pra começar, será que se fosse a cada um segundo suas reformas em vez de obras haveria tal discussão? Foi só pra provocar. Não se apresse não.

Não tem jeito, mas minha formação de engenheiro vai pesar por aqui. É o meu viés, e quem estiver lendo terá que filtrar. Já adianto que por conta disso, tem reforma, retrofit, recuperação, restauração, reparo, reforço e brownfield. Entendedores e curiosos entenderão. São conceitos simples e de fácil diferenciação.

Todos eles têm a ver com algo que está de um jeito e vai mudar porque alguém quis e pode fazê-lo. Contudo, isso depende da disponibilidade “orçamentárias” do patrão. Você.

A crítica à terminologia hoje dominante – reforma íntima – advém da ideia de uma pregação que imporia a necessidade de mudança. Algo, por isso, visto como forçado, não natural, que acabaria provocando o uso de máscaras. Ou seja, uma combinação infeliz de palavras, com efeitos perniciosos e quase tão perigoso quanto reformar o reator de uma usina nuclear desprovido das proteções adequadas.

Outros pensam que não se reforma o espírito, pois que este é feito para se desenvolver.  Um puxadinho seria uma forma dessa expansão? E um andar a mais? Uma sala nova? Um revestimento diferente? Um quadro numa nova disposição? Ou será que é só pagar as contas de água, luz, telefone e internet?

Acredito que tudo tenha seu público. Se “reforma” lhe incomoda, você pode fazer uma construção do zero. Ou melhor dizendo, uma construção de onde parou. Pode também ficar pregado no sofá da sua velha sala vendo televisão.

Como diria o não engenheiro Herculano Pires, o metro que melhor mediu Kardec segundo Emmanuel: “A expressão reforma íntima é inadequada, pois implica a ideia de substituição de coisas, conserto, modificação em disposições internas, como numa casa ou numa loja. As disposições internas do espírito correspondem ao seu grau de evolução“.

Pensando aqui… mas eu não quero justamente sair de um grau de evolução para outro? Como fazer isso sem adequar “disposições internas”?  Algumas dessas disposições já seriam passíveis de mudança e outras não. O espectro dessa jornada evolutiva de todos nós é bem extenso e intenso para recepcionar pensamentos estáticos como esse.

Aliás, reformei meu apartamento que foi comprado na planta. Estava novinho. Foi algo não imposto, que respeitou totalmente minha liberdade – deixemos de lado as conversas com minha esposa, que, a propósito, também é engenheira. Nosso cantinho ficou muito melhor. Não tinha nada quebrado lá, nada para ser consertado quando cheguei. E agora José? Deveria eu como engenheiro ter usado outro termo lá ou cabe outro termo cá, ou nem lá nem cá?

Tecnicamente, o incômodo do brilhante filósofo Herculano Pires seria mais adequado se o termo em voga no Movimento Espírita fosse “restauração ou mesmo recuperação íntima”. Aí sim seriam palavras muito mais depreciativas. Mas isso são aulas ou vieses lá da engenharia.

Confesso que a ideia de o conceito de reforma íntima ser uma construção ideológica para passar a ideia de medo é complicada pra minha cabeça de engenheiro. Espiritismo é pra quem aguenta. De resto, são vãs tentativas de se aliviar termos que não são em nada aterrorizantes quando se tem a Lei do Progresso, a Lei de Justiça, Amor e Caridade e o próprio livre-arbítrio como alicerces dessa construção, ou reforma, sei lá.

Pense bem, se a reforma é sua, é íntima. Como é que alguém pode reduzir sua autonomia nisso? Diferente do contexto do empreiteiro terreno, você tem a fatalidade da evolução, a qual vem com mudanças, com reformas, com atitudes renovadas. Algo bem diferente e estimulante, não é? Pode isso tudo ser fruto do meu otimismo? Talvez, mas duvido que meus amigos espirituais estejam preocupados com isso.

Para os que gostam de ser literais, podemos também nos valer de O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos:

Esses são os espíritas imperfeitos, alguns dos quais ficam a meio do caminho ou se afastam de seus irmãos em crença, porque recuam ante a obrigação de se reformarem, ou então guardam as suas simpatias para os que lhe compartilham das fraquezas ou das prevenções. Contudo, a aceitação do princípio da doutrina é um primeiro passo que lhes tornará mais fácil o segundo, noutra existência. (capítulo 17, item 4 – Bons Espíritas). Allan Kardec

919. Qual o meio de resistir ao arrastamento do mal?

“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de cada dia interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito e me perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever, se ninguém teria tido motivo para se queixar de mim. Foi assim que cheguei a me conhecer e ver o que em mim necessitava de REFORMA.” (grifos meus)

Santo Agostinho – tradução, advinha de quem? Herculano Pires. Pois é.

Eita… agora ficou pessoal. Acho que é isso mesmo, afinal o “empreendimento” é íntimo, certo? Nessa hora a máscara da retidão moral cai na forma de melindre. Ou não. Você apenas não se deu conta de que chegou (ou uma hora dessas chegará) o terceiro período do Espiritismo – o da reforma da Humanidade – como anotado por Kardec em Viagem Espírita.

O texto do Evangelho explica que você pode aproveitar o resto do infinito – “noutra existência”- para se modificar e nessa vida só se conhecer melhor e fazer o bem com o que já é, se assim o quiser. Sem problemas. Cada consciência dita seu ritmo. Não se trata aqui de um conjunto habitacional de reformas idênticas e simultâneas. Há de palácios a casebres, ao gosto do leitor, em um mundo de provas e expiações, as quais não ficam só lá na rua em frente ao imóvel. Você que se resolva aí como vai ser na hora do seu IPTU consciencial.

Dando sequencia, se a pessoa se vale da reforma para usar uma máscara, para se camuflar numa hipocrisia social (reforma só de fachada e não das instalações prediais, da estrutura), o problema é dela que confunde teatro com espiritismo e não de quem dissemina o termo, com base no próprio Evangelho como demonstrado acima. Em minha opinião, os “mascarados” só demonstram desconhecimento de conceitos básicos do Espiritismo. Aliás, a Lei de Sociedade é pra ser testada especialmente fora do Centro Espírita.

Outro aspecto vindo lá da engenharia. Reforma pressupõe prévio conhecimento do objeto a ser modificado. Muitas reformas extrapolam o prazo e orçamento porque não foram tão sagazes lá na etapa de se conhecer, ou de se planejar. Nisso também casa o termo “reforma íntima” com a Doutrina Espírita. Basta, para tanto, ver o elucidativo enfoque contido na questão 919 de O Livro dos Espíritos. Em síntese, um passo a passo para o “levantamento de quantitativos” do auto-conhecimento necessário para uma reforma não traumática.

Se você conhece e estuda o Espiritismo e não sente a mínima vontade de visitar seus cômodos para ver o que já dá pra mudar agora, é porque você não compreendeu o propósito transformador dessa Doutrina. Ou, de outro modo, não se reforma o que é perfeito e você é um Espírito Puro perdido por aqui (nesse texto).

Em termos práticos: ninguém veio aqui pra continuar do mesmo jeito. Seria uma tremenda perda de tempo. Tempo esse que corre diferente para cada um. Simples assim. Agora, se você se imagina recebendo um tapinha nas costas e ouvindo antes de reencarnar: “Vai lá campeão. Mais do mesmo. Aproveite a liberdade!” nem deveria estar lendo este texto bem aquém das suas capacidades. My bad.

Como diria um amigo:  “A casa é sua. Entre e a conheça. Faça dela o que quiser, mas lembre-se que reformas, muitas vezes, perturbam os vizinhos.” Ou ainda, para citar outro filósofo não engenheiro.

Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos. (Eduardo Galeano)

É..isso dá trabalho demais. Por isso mesmo que o trabalho é até o limite das forças (questão 683 de OLE) e o verdadeiro espírita é aquele que se esforça (capítulo 17 de OESE) e nós todos responderemos pelo mal que fizermos, pelo bem que fizermos e também pelo bem que deixarmos de fazer (questão 642 de OLE).

É preciso maturidade pra aproveitar a liberdade relativa de que dispomos.

Transforme ou reforme seus conceitos, seja lá quais forem, em novas atitudes pro Bem que tá bom demais. Quando isso acontecer, o cara da estátua (da imagem) já estará livre por conhecer A Verdade.

 

 

 

3 comentários em “Reforma Íntima e Transformação Moral

  1. excelente seu artigo !
    a expressão , “faça sua reforma íntima” já se tornou um jargão no meio espírita – uma espécie de receita padrão, principalmente para se aconselhar aos outros ; os veterenanos espíritas, que pensam já fizeram a sua reforma e, com um ar de catequista , recomenda (e as vezes quase que initimam) os outros a fazê-la . — os antigos religiosos que fomos, em nossas passagens pelo clero organizado, temos pressa em enviar os outros para o céu. – certa ocasião um “espírito sofredor” pediu ao doutrinador :”tenha paciência com a minha infelicidade…”

  2. Ninguém obriga ninguém a fazer uma reforma íntima, os espíritos apenas nos aconselham a fazer, agora cabe ao assistido se tem o interesse de melhorar moralmente ou não. Quanto mais adiarmos esse fato só retardaremos a nossa evolução espiritual ( isso sim é ignorância),

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s