(5 minutos) – Guilherme Costa

Eu queria que meu primeiro livro fosse minha biografia, na minha cabeça já tenho tudo armado, uma história que contasse que no período de 10 anos fui do leito de morte ao pódio paralímpico, um best-seller! Porra, com 25 anos tenho um final perfeito, feliz e eu nem morri. Entretanto meu escritor não tem tempo para escrever o livro, ele trabalha muito e não tenho outra opção. Convenceram-me também que autobiografia tem mais chance de dar errado do que certo, então resolvi escrever um primeiro livro mais simples e mais acessível. Apesar de ser um tetraplégico não vai ter história triste, nem vou focar em detalhes da minha vida (ainda espero lançar essa biografia) e nem vou ficar com essa “etiqueta” de superação.

Calma, você é tetraplégico, mas não vai contar história triste, não vai aprofundar na sua vida, nem vai falar sobre superação? Mas, então sobrou o que? Esse é meu desafio. Acabei de mudar pra São Paulo, vou morar com dois atletas, tendo que fazer tudo sozinho ou com eles. Somos dois tetraplégicos e um perneta, ou seja, se juntarmos tudo o que temos na casa não dá um homem completo, porque fica faltando uma perna boa, mesmo sobrando quatro braços ruins.

Minha ideia com esse livro é fazer uma área de descarga de aprendizado, acabei de inventar esse nome, explicando melhor: Coisas úteis que aprendi nessa jornada fora de casa. Para ter certeza que vai ter conteúdo bom, juntei a minha ideia de escrever um livro, junto a ideia do Rafa que também era de escrever e formaremos esse complexo de pensamentos juntos. Juntaremos cotidiano, economia, espiritismo, engenharia, devaneios e por ai vai. Nosso objetivo é causar inquietação e trazer movimento ao nosso leitor.

Não sou um leitor exímio, portanto não sei nem se existe um livro parecido. Não tenho faculdade completa, ainda. Não me coloco na posição de professor. Sou apenas um cara muito grato a Deus, a vida, ao universo e a tudo, seja lá como você chame isso. Só desejo retribuir ao mundo um pouco de amor que recebi. Se esse livro for útil para você, de alguma forma, para mim, fez sentido escrever ele. Esse é o ponto. Então vamos lá.

Hoje fui há uma palestra que tratava sobre autoconhecimento. Sou louco por esse tipo de busca. Completo também 10 meses de namoro hoje e a patroa pediu que eu fosse, pois, ir era importante para ela, mesmo eu estando aqui em sampa e ela em Brasília, então fui. A palestra foi muito boa, as pessoas do local eram muito simpáticas e acolhedoras, e eu tive um grande insight nessa noite: me fez bem ir lá.

Puta que me pariu! Essa é a mensagem que você tem para deixar hoje? Você só pode estar de sacanagem, senhor curupira! Sim, essa é a primeira mensagem do livro. Deixa eu te falar o que percebi. Para descobrirmos coisas que não gostamos é necessário que existam coisas que gostamos, certo? Vice e versa também, certo? Só existe escuridão porque existe luz. Não faria sentido se não houvesse esses extremos porque tudo convergiria para uma mesma direção, logo não haveria polos. A teria do Yin-Yang explica um pouco melhor isso. Gosto da harmonia desses dois lados e da complexa necessidade dos dois lados para se haver equilíbrio.

Voltando a minha percepção, percebi que colocar durante minha semana eventos desse mesmo tema, seja no aspecto filosófico, religioso, cientifico ou em qualquer outra vertente, me faz muito bem. Sou bombardeado todos os dias por uma maré contra isso. Eventos e fenômenos que me falam sobre superficialidade ou futilidades, enquanto tenho colocado poucas coisas sobre o assunto que me faz vibrar para contrabalancear esse equilíbrio. Estou falando de um ou dois eventos semanais, para me alimentar disso e me manter no foco do que eu quero ser daqui uns anos. E essa regra é do GUILHERME. Se você curte um samba ou uma arte ou esporte ou culinária, mano esse é o seu momento do despertar da força, não o meu, portanto deixe fluir. Antes que você faça conclusões precipitadas isso aqui não é um livro de autoajuda, desculpe.

Percebi o quanto saí leve da palestra. Só por me fazer pensar sobre a vida e tentar alinhar minhas atitudes com o que eu busco ser. Trago um alerta para as prováveis coisas que você deve estar pensando nesse exato momento, tendo elas na rotina ou não, pare pra pensar se aquilo é saudável pra você ou não. Não quero julgar nem saber o que você faz ou por onde anda. Você apenas deve ter a certeza que sua escolha te faz bem hoje ou fará no futuro, só isso.

E, no fundo, você sabe que não há espaços para desculpas. Cara, eu sou tetraplégico e dou jeito de fazer, logo você vai conseguir. Se um tetra consegue e você não, só nos resta uma opção: chorar até se convencer de que há outro caminho. Mãos à obra, porra. Volte a equilibrar a balança da felicidade. Busque essa harmonia. Esteja pleno hoje. Vou dar outro exemplo para te inspirar… Sempre gostei muito de cozinhar. Agora, morando fora de casa, voltei a cozinhar depois de 10 anos, tempo que estou aleijado. Amava cozinhar antes do acidente. Depois da lesão tive medo de cozinhar por conta das minhas mãos, que são ruins pra cacete de movimento, pois a chance é mais de me queimar do que de matar a fome. Na noite que escrevi esse texto foi a primeira vez que cozinhei minha janta, completamente sozinho, aqui em São Paulo. Venci meus medos, receios e barreiras. Fui gigante, mas não se iluda: fiz um miojo.

Caro leitor, pode parecer sacanagem minha, talvez em parte até seja por criar um texto inspirado o suficiente para gerar expectativa em você, mas pra mim foi um ato esplendoroso. Na minha visão fui campeão do máster cheff (quero ver ganhar o programa com uma lesão na cervical igual o papai aqui). Hoje só fui cozinhar e comecei esse livro, porque fiz algo antes (assistir a palestra) que me deixou muito feliz, portanto o lance é muito maior que miojo…

Um comentário em “O primeiro passo de quem não anda

  1. (risos) Gui! Engraçado! É… Tenho podido verificar por mim mesmo que de fato a alegria é um importante alimento d’alma. Muito bem, irmão! A tua forma descontraída, leve de lidar com tuas atuais e transitórias limitações físicas inspira autossuperação em aqueles que te conhecem.

    Estou aqui a pensar, depois de ter lido essa tua publicação: como precisamos “falar” e “ouvir”. O que está dentro de nós “pede” para vir para fora. E também dentro de nós há algo que reclama o contato com o que está dentro do outro. Nós nos alimentamos, nesta esfera dos pensamentos e sentimentos, um ao outro.

    Parabéns pelo miojo que, segundo tu mesmo, representa algo maior!

    Quero ler o teu livro!

    Que Deus te abençoe abundantemente!

    O ENCONTRO-ME [e eu] sentirá [sentiremos] saudades da tua presença física!

    Paz e Bem!

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