(5 min) Rafael Martins

Qual o propósito de não se lembrar de outras vidas? Que espécie de “reset” divino é esse que nos intriga algumas vezes? Nesse post, combinando literatura espírita, economia comportamental e uma pitada de futurismo, tento lembrar o porquê esse olhar para trás seria mais âncora que mola para nossa atual jornada.

Entre as perguntas 392 e 399 de O Livro dos Espíritos, há o cerne do que se precisa saber sobre essa misericórdia misturada com amnésia.

Primeiro ponto. Caso todo o passado fosse descortinado para espíritos do nosso nível evolutivo, haveria muito mais ofuscamento do que esclarecimento. Com a visão atrapalhada, teríamos nossa caminhada comprometida. Aquele lance de “a ignorância ser uma benção” vai mais longe do que se pensa.

Esse argumento é facilmente acolhido quando lembramos que estamos em um mundo mais próximo da partida do que da chegada no que se refere à evolução. Em outras palavras, um mundo de provas e expiações é composto por habitantes que merecem e precisam de provas e expiações. Disso se depreende que, na média, fizemos mais mal do que bem contando toda a nossa trajetória, desde a simplicidade e ignorância do início.

Uma bagagem diminuta dos romances de Emmanuel ou André Luiz já revela o quão constrangedoras e embaraçosas seriam as relações sociais caso soubéssemos com detalhes como a Lei de Causa e Efeito age.

Imagine se em “episódios anteriores” você descobrisse que entre os seus irmãos houvesse algum estuprador da sua mãe; entre os seus colegas de trabalho, fosse você aquele que tivesse levado vários deles à falência; entre os seus amigos de futebol, você tivesse contribuído, pela via do adultério, para o fim de vários casamentos. Imagine agora que os outros personagens também saberiam disso tudo. Seria algo pior que The Walking Dead…

Segundo ponto. Combinando a Lei do Progresso com a Lei de Justiça, Amor e Caridade, há toda uma lógica de bondade nesse véu momentâneo que a grande maioria de nós carrega. Isso porque somos hoje a nossa melhor versão que já existiu.

Olhar para trás muito provavelmente não aumentará nossa auto-estima*. Vale aqui a extrapolação daquele sentimento que vem quando rememoramos as burradas da adolescência. Algumas coisas a gente prefere mesmo esquecer. Intelectualmente e moralmente estamos num ponto que nunca atingimos.

Ter sido alguém importante acionaria o risco do orgulho. Já não ter sido ninguém poderia incitar frustração ou mesmo revolta.

A supracitada Obra Básica (OLE) também esclarece o que a intuição e o bom senso já apontam: há um nível de evolução espiritual – não estamos lá ainda – em que as recordações do passado podem ser acessadas porque já são encaradas como muito mais maturidade e utilidade ao Bem. O “conhece-te a ti mesmo” tem lá as suas calibrações.

Dá pra colher indícios de que o esquecimento ainda é o melhor caminho quando observados alguns experimentos do ramo da Economia Comportamental. Aqui eu vou citar um** deles.

Avaliando o conflito de interesses e transparência, cientistas se valeram de uma jarra cheia de moedas, um estimador e um conselheiro. O estimador via a jarra alguns segundos, ao passo que o conselheiro podia observar a mesma jarra por alguns minutos. Além disso, o conselheiro recebia a informação privilegiada de que a jarra continha entre 10 e 30 dólares.

O estimador tinha a premiação associada à proximidade – para mais ou para menos – com o valor exato de dólares contido na jarra.

Já o conselheiro tinha duas formas de bonificação. Na situação de controle – sem conflito de interesses [1] – ele ganhava pela precisão do estimador. Em um segundo cenário [2],  já com conflito, a grana que ele levava era maior quanto mais os estimadores exagerassem em seus palpites.

Para [1] os conselheiros sugeriram $ 16,50. Para [2], o valor já subiu para $ 20.

E se removêssemos o véu do conflito de interesses de [2] e colocássemos transparência total no experimento? Em outras palavras e se os estimadores soubessem como é a mecânica de remuneração aos conselheiros na situação de conflito de interesses?

O que prevaleceria? O desconto que o estimador aplicaria sobre a proposta do conselheiro seria maior ou menor do que o exagero do conselheiro?

Com o conflito de interesses mais a transparência os conselheiros propuseram $ 24 (aumentaram $ 4 em relação aos $ 20). Diante disso, o estimadores reduziram seus chutes finais em apenas $ 2.

Trazendo analogamente o conflito de interesses do experimento como o nosso nível atual de egoísmo e orgulho, vimos que a transparência gerou um desvio ainda maior nos conselheiros.

Por fim, pegando carona no ensinamento do futurista Alvin Toffler, para não sermos os analfabetos do século XXI é preciso aprender, desaprender e reaprender.

Afinal, qual é o sentido de ficar agoniado com isso quando se é imortal?

 

* A Terapia de Vidas Passadas não integra o tripé da Filosofia, Ciência e Religião da Doutrina Espírita e não é prática pertinente a qualquer Centro Espírita que siga as orientações da Federação Espírita Brasileira. Contudo, dentro de consultórios especializados, tem se mostrado procedimento cada vez mais difundido, e que, em alguns casos, pode contribuir para o entendimento de situações e traumas complicados.
** Retirado do Livro A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade de Dan Ariely  

 

 

 

 

 

2 comentários em “Esquecidos

  1. O semeador saiu a semear. A palavra do Cristo é demasiado clara. O semeador não aguardou requisições. Saiu da própria comodidade ao encontro da terra. Ainda assim, não estabeleceu condições para doar-lhe as sementes que trazia, entregando-as sem cogitar-lhe das possibilidades e recursos. E amparou não somente o solo fértil e as aves famintas, mas também socorreu terrenos outros que espinheiros e pedras desfiguravam. A notícia evangélica não diz que as sementes caídas entre calhaus e sarças fossem destruídas. Explica que foram simplesmente abafadas, o que não lhes invalida a potencialidade para a germinação em momento oportuno. Assim igualmente é o amparo espiritual a quantos deles necessitem no mundo. Os corações humanos assemelham-se a glebas de plantio. Muitos estão habilitados à recepção da verdade, à maneira do solo preparado pelas experiências da vida; outros, porém, se nos revelam por vales aprazíveis, mas incultos, inçados de escalracho e pedregulho contundente. Todos, no entanto, carecem de auxílio, apoio, entendimento, atenção. (Emmanuel- Psicografia de Chico Xavier)

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