Rafael Martins (3 min)

Mal entendido como “moeda” no mundo espiritual, o bônus-hora popularizou-se no livro Nosso Lar de André Luiz, uma das obras mais disseminadas entre os espíritas e simpatizantes.

Em linhas gerais, contabiliza-se a quantidade de horas alocadas no trabalho útil ao próximo ou a si mesmo. A depender da quantia adquirida você pode ter um espaço mais bonito pra morar, direito a novos cursos, a interagir com espíritos mais sábios, experiências mais desafiadoras ou ter alguns instantes com aquele saudoso parente que já evoluiu muito mais que você.

Por exemplo, certa vez o mentor espiritual de Chico Xavier (espírito Emmanuel) confessou que para ter alguns segundos ao lado de Lívia (sua amada e espírito de escol) precisaria trabalhar alguns anos.

Dito isso, aqui na Terra, é comum ouvir comentário banalizando o bônus-hora durante trabalhos voluntários: “vou ficar mais um pouquinho pra ganhar mais uns bônus-hora“.

Contudo, há um detalhe importante muitas vezes ignorado. Nosso Lar, como qualquer colônia espiritual, tem o seu nível vibratório. Por conta disso, tem o seu “habitante médio”.

Ralar uma hora no Nosso Lar diz respeito a uma faixa de esforço médio bem diferente da colônia espiritual onde, eventualmente, estão Lívia, Célia e Alcione , personagens kabulosas dos romances Há 2000 anos, 50 anos depois e Renúncia, respectivamente. Comparar a postura dessas três com praticamente qualquer terráqueo é constrangedor.

Quanto mais abnegação e sabedoria, mais valiosa a hora de serviço. Bisonhamente comparando (pelo viés exageradamente otimista), Lívia está para a Libra esterlina enquanto você e eu estamos para pesos paraguaios.

A analogia serve pra fixarmos.

Com muita grana de uma moeda forte aqui se pode ter roupas, carros, comidas, casas, mais herdeiros…

Com muito bônus-hora de alto nível, há possibilidade de um investimento cristão em si mesmo ou nos outros. Volitar, comunicar-se pelo pensamento, fazer-se invisível aos outros já é algo inerente ao estado evolutivo.

Pensando sobre essa monetização das coisas espirituais lembro de duas sacadas da velhinha de Calcutá:

O importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá.

Não é o que você faz, mas quanto amor você dedica no que faz que realmente importa.

No mesmo sentido, é a interpretação da parábola dos semeadores da última hora  (Parábolas Evangélicas de Rodolfo Calligaris). Segundo tal autor, o que vale é o esforço, a capacidade amorosa e não o tempo em si. Daí que, nessa lógica, conhece-se a árvore pelo fruto e não pela idade (dimensão temporal). Do contrário, os altos planos estariam recheados de sequóias milenares.

Ou seja, o foco não tá no relógio, nem na carteira, nem em qualquer catraca mental, mas no coração.

Contudo, é bastante razoável presumir que a partir de algum nível já nem faça mais sentido essa contabilidade de bônus-hora. Afinal, quem faz o bem realmente de forma 100% desinteressada não tem a necessidade de conferir isso. Ou tem?

Checando a resposta da questão 967 de O Livro dos Espíritos vemos que os espíritos puros são felizes pelo bem que fazem e não pela quantificação do bem que fazem. Se trabalham o tempo todo, qual o sentido de fazer continha de bônus-hora? A propósito, é mais lógico supor que tais irmãos nossos prefeririam doar bônus-hora a quem mereça e possa receber do que usar com eles mesmos. Lembremos que tais criaturas, diferentemente de nós, já agem como seres imortais filhos de um Pai Perfeito. Nós ainda sofremos com o amanhã.

É bom destacar que na obra codificada e analisada por Kardec não consta qualquer referência à “monetização espiritual da caridade”.

Pense como seria estranho imaginar nosso guia e exemplo – Jesus – fazendo conta pra ver se consegue visitar outra galáxia com outros espíritos crísticos mais tarimbados que ele.

Em todo o caso, não interessa quanto você tem (aqui ou lá no mundo espiritual), mas sim quanto você tem para dar e como você estará no seu íntimo nesse processo.

Menos bônus-hora e mais amor sem ver o tempo passar. 

 

 

 

 

 

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