Nathália Silva (4 minutos) –

​​solitude do Monte

“Entretanto, se realmente sobes, que ouvidos te poderiam escutar a grande distância e que coração faminto de calor do vale se abalançaria a entender, de pronto, os teus ideais de altura?

Choras, indagas e sofres… Contudo, que espécie de renascimento não será doloroso?”*

 ​Qual a diferença entre solidão e solitude? São sinônimos?

Na realidade, são tratadas como se fossem, mas guardam entre si uma diferença fundamental. A solitude simboliza um estado de preservação, que não necessariamente significa solidão. Estar recluso, introspectivo ou isolado não é a mesma coisa de estar só. Quantas vezes não vivenciamos momentos em que, mesmo na abundância de presenças e calor humano, nos vemos imersos em nosso próprio interior?

Contudo, não estamos acostumados com a ideia de solitude. Adentrar o desconhecido em nós mesmos aparenta uma sensação de solidão que muito tememos. Por vezes, ainda buscamos uma oportunidade para partilhar com outros ou fazê-los assumir as nossas próprias responsabilidades. Somos assolados pelo medo de desbravar as nossas próprias sombras e nos encontrarmos sós, diante de um Homem Velho que tanto nos assusta e que não queremos conhecer… E assim, recorremos às inúmeras máscaras que fortalecem a nossa persona, o nosso dever ser, que aparenta, confortavelmente, uma autoimagem favorável às demandas do orgulho, em detrimento das vivências profundas com o real, através do Self.

Viver uma vida de aparências já nos custou muito. A reencarnação, mecanismo santo da Justiça Divina, tem trazido à vivência material Espíritos tomados pelo arrependimento, que almejam vivenciar a verdade no seio de suas consciências. Porém, muitos de nós ainda vivemos esse despertar de consciência de maneira passiva, com uma articulação incrível de palavras e conhecimentos sábios, que se esvaem na contradição existente entre a fala e as próprias atitudes. Quando optamos por vivenciar com a alma esse despertar de consciência, tornando o Verbo o nosso real propósito de vida, necessariamente seremos convidados a encarar essa ideia que ainda nos soa tão nebulosa: a solitude

A razão não parece dar conta sozinha das provas silenciosas que vivenciamos em nosso íntimo, que nos convidam ao exercício da resignação e à coragem de abrir mão daquilo que erigimos como verdade absoluta. Creio que é nesse momento que o testemunho de fé nos fortalece, à medida que conseguimos compreender a solitude como um estado de paz de espírito e não de solidão.

O próprio Cristo, diante das incompreensões do mundo material, reservou-se em solitude no topo do Monte e ajoelhou-se, para entrar em Comunhão com o Divino. Ali verbalizou suas dores, o peso de sua Cruz e, imerso em intensa oração, fora fortalecido pela aparição de Anjos Celestes, que o consolaram a Alma e ratificaram que Ele não estava sozinho. Jesus nos ensinou que solitude, silêncio e oração são as ferramentas mais preciosas que possuímos na vivência da reforma íntima e do autoburilamento. 

Mesmo em tempos difíceis, nunca estaremos sozinhos na missão a ser desempenhada, apesar de muito duvidarmos disso pelas circunstâncias da vida. Vemos seres que muito amamos se distanciando de nós. Vemos que muitos daqueles amigos de ideal, que refutavam quaisquer impressões de solidão de nossos corações pelo simples fato de existirem ao nosso lado, optarem por caminhos diferentes dos nossos. Vemos incompreensão por parte daqueles que pensávamos conhecer-nos de alma.

Isso não significa que não teremos o outro ao nosso lado, mas significa que talvez não o teremos da forma que esperamos ter. Alguns se farão presentes em toda a nossa trajetória; outros seguirão caminhos distintos dos nossos, mas permanecerão em nossas doces memórias, regadas de afeto e carinho e, algum dia, compreenderão nossos passos, já que a Lei do Progresso vige entre nós e, inexoravelmente, todos alcançarão a grandeza, cedo ou tarde.

Este processo doloroso, mas engrandecedor, nos convida à vivência do Amor tal como ele é e não como o idealizamos, a exemplo da fala de Paulo em sua 1ª Epístola aos Coríntios: “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Esclarece-nos que, independentemente de qualquer coisa, seremos possíveis porque outros aceitarão sê-lo conosco, sejam estes encarnados ou desencarnados, porque ninguém vive sozinho.

Todavia, não nos esqueçamos de que é esolitude que verdadeiramente nos compreenderemos, que integraremos as sombras de nosso interior que por tanto tempo foram negadas, que desconstruiremos os fantasmas que nos assolam a mente e o coração por milênios. “Conhece-te a ti mesmo”, como já disseminava o filósofo Socrátes, sendo tal ensinamento complementado por Jesus, quatrocentos anos depois: “E conhecereis a verdade e a verdade vós libertará. (João, 8:32).

É com o suor do trabalho em favor dos nossos semelhantes e com as lágrimas do sacrifício redentor que alcançaremos o nosso engrandecimento. Ao final de nossas jornadas, ressuscitaremos para a Vida Eterna e lá estará o Infinito Bem a nos aguardar, para servir na Seara de Luz e Trabalho que o Mestre Amigo nos preparou.

(Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, Fonte Viva, pág. 70)

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