É preciso muita destreza em certos assuntos que, se abordados de forma rasa, perdem muito de sua eficácia. Envolvendo delicadas questões em camadas cuidadosamente justapostas, garante-se uma discussão mais clara, a ponto de realmente iluminar a penumbra que nos cobre em vários temas.

Veja só, por exemplo, ao falar da existência de Deus, pode-se simplesmente informar que a humildade é um input indispensável no nosso processo de convencimento. Contudo, sem complicar demais o assunto, pode-se ser mais impactante quanto à lógica em se diminuir para aceitar o Criador e Sua grandeza.

Nesse compasso, poder-se-ia resgatar o fato de que Jesus já tinha advertido os próprios apóstolos quanto à impossibilidade de lhes revelar certas coisas. Ou seja, espíritos de escol foram escancarados diante do fato de não estarem em condições de nem mesmo ouvir algumas verdades, quiçá entendê-las. Tipo uma criança para a qual não faz o menor sentido explicar sobre fundos de pensão, papel das mitocôndrias, balanceamento químico das equações, dosimetria das penas do código penal, rito do impeachment, etc. Ao descortinarmos algo mais próximo do tamanho real do que desconhecemos vem a humildade como um output imediato. Somos crianças para o Universo.

Adicionalmente, ainda pra fazer gritar o quanto somos toscos e há sentido em nos aceitarmos como ínfimos, e assim, facilitar a argumentação em torno da existência do Pai, pode-se explorar a parte dO Livro dos Espíritos em que Kardec mostra-se curioso quanto à possibilidade de resolvermos a parada toda da evolução numa única vida, caso nos portemos de forma impecável. A resposta dos espíritos é um cascudo no nosso orgulho, um “pedala Robinho”, o combo do Ken na final do mundial de Street Fighter (fãs da franquia tem como entender).

Dizem eles logo no início da resposta a pergunta 192:

Não, pois o que o homem julga perfeito longe está da perfeição. Há qualidades que lhe são desconhecidas e incompreensíveis”.

A mesma lógica da assertiva acima vale para aquilo que o meu cachorro considera perfeito. O Michelangelo (vulgo Mika) não consegue explicar um monte de qualidades (complacência, resignação, resiliência, disciplina, humildade – pro meu pet é tudo ou bom ou ruim) e eu também estou bem longe da perfeição. Percebeu? Pelo esclarecimento proveniente da obra primeira do Espiritismo vê-se que a nossa distância para um espírito puro é, grosseiramente comparando, a mesma que nos separa de seres que fazem cocô na frente de todo mundo. Isso decisivamente robustece o input da humildade, já que somente os espíritos que “zeraram” completamente as dificuldades da matéria é que podem ver e entender Deus.

Para não ficar restrito à abordagem espírita, o que você diria se soubesse de um povoado que nunca saiu dos limites da tribo? Que ignora a velocidade com que se pode comunicar com pessoas do outro lado do mundo? Gente rude, simples, não letrada, certo? Pois então, reconheça que nós somos essa tribo no referencial do Cosmos (sendo otimista). Estamos por aqui na Terra e em nada dominamos a velocidade do pensamento. Por estarmos num planeta de provas e expiações, estamos mais perto do ponto de partida, e isso logicamente confere razoabilidade à postura humilde, a qual nos aproxima de Deus.

Outro exemplo interessante residiria na superficialidade de alguém que queira condenar toda a Doutrina Espírita ante a resposta à pergunta 46 dO Livro dos Espíritos que, na minha opinião, pende pro lado da geração espontânea. Com mais uma camada de estudo e qualquer um se depararia com a declaração de Kardec de ficar com a ciência sempre que houver alguma contradição com a religião, inclusive com o próprio Espiritismo. O professor Rivail, dentro do seu bom senso, tinha plena noção de que poderia se equivocar, de que os entendimentos evoluem e deixou frases carregadas de sabedoria e humildade para recorrermos diante de pontos controversos. Em todo o caso, conhece-se a árvore pelos frutos…

Percebe? A Doutrina Espírita é um bolo de rolo. Fica muito mais apetitosa se caprichosamente examinada em diversas camadas ou abordagens para um mesmo tema. Cada pedaço tem que percorrer alguns estratos. Do contrário, compromete-se o sabor e tem-se um bolo solado à mesa.

 

Rafael Martins

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