Naquele que nunca viu a luz até o dia de hoje pode estar um argumento tácito bem explícito quanto à prova de Deus.

Pensemos na sua versão cega até a melhor idade. Isso mesmo. Para se completar este exercício, de uma maneira mais aproveitável, é preciso imaginar o impacto nas coisas invisíveis como a fé se todas pessoas passassem pela cegueira até o momento em que se dá conselhos aos mais novos.

Com isso, retomando a simulação proposta, lá pelas três horas da tarde de um dia nublado dentro de um quarto de hospital você acorda de um jeito diferente. Percebendo nitidamente tudo o que sempre imaginou pela ação do pensamento combinado aos demais sentidos. Avanços da medicina…

Cada descoberta tem um peso que absolutamente só você pode ponderar.

As cores. Aquela relação de palavras que sempre os outros tinham enorme dificuldade de lhe explicar, quando não adaptavam o discurso para evitar constrangimentos, surgem uma a uma, ainda sem uma associação pronta porque você nunca tinha ligado para isso até então.

Quando sua experimentada audição identifica pelos passos a pessoa amada se aproximando do quarto, o conceito mais bonito e justificável de ansiedade lhe domina. Você chega a se irritar com o tempo perdido piscando durante essa breve eternidade. Tudo vai ficando mais intenso, os outros sentidos saem do protagonismo e o tempo colabora com uma leve desacelerada para que a visão do amor se sobressaia e tome o seu devido posto.

Contudo, todo esse tempo de intuição no lugar da visão ainda não lhe deixou menos cético. Exauri o médico com perguntas em busca da certeza da manutenção da nova faculdade.

Como sedento observador que corre atrás de um tempo perdido vai alucinada e pragmaticamente se reinventando para cada novo aspecto constatado: cores, pessoas, comidas, construções, letras e uma infinidade de fantásticas invenções humanas direcionadas àqueles que aparentemente tudo viam. Sente-se infantil ante a dependência dos porquês nas primeiras horas desse primeiro longo dia.

Ateu desde que soube da existência de pessoas que acreditam em Deus, volta pequena parte dos diálogos junto aos familiares a desacreditar com mais convicção a Divindade, colocando na conta de mãos humanas tudo o que consegue perceber, valendo-se inclusive da própria cirurgia que demandou uma miríade impressionante de recursos tecnológicos.

Antes de cerrar os operantes olhos depois desse dia especial ouve um recado do neto, que na sua inocência indiscreta dispara: “por que o senhor não agradece a Deus antes de dormir?”. Embora a resposta lhe seja imediata no pensamento, seria muito chocante e deselegante enunciá-la a uma criança que já sabia crer fervorosamente Naquele que supostamente detém a resposta a todos os porquês. Prefere dizer em um tom de boa noite – “vovô já agradeceu ao Doutor”

Acorda. Dá um sorriso confiante ao notar o quarto em todos os seus detalhes. Sonhou até colorido. Contudo, não se lembra dos fatos direitos.

A novidade é que o dia estava lindo sem nuvem alguma no céu. Sendo ainda bem cedo sai até o quintal da casa em silêncio (para não acordar ninguém) no intuito de ver o tal “nascer do sol”.

Vai com muita sede ao pote e seus olhos sofrem com tamanha luz, suas pupilas se queixam até que ajuste as pálpebras e aproveite a contemplação.

Imediatamente, sozinho e numa conversa consigo mesmo chega numa pergunta algo perturbadora: “teria sido cego toda uma vida ao negar Deus?” Ao que o mesmo netinho chega e, empolgado com aqueles raios de sol em tiras paralelas que desciam do céu, diz, “feche os olhos que você poderá sentir Deus vovô”. O velho homem silencia disfarçando a emoção e entende que são os olhos da alma que vibram em comunhão com o Criador com o qual ele ainda não se religou.

 

Rafael Martins

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