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É uma questão delicada tratar sobre algumas posturas no voluntariado que acabam dando ainda mais trabalho para a parcela mais comprometida do voluntariado.

Como tudo naS vidaS, também o voluntariado é representado por fases. Se você é voluntário, alguma coisinha útil você já faz.

Se ainda não é, leia e compartilhe esse texto pra se tornar um.

Contudo, terminar essa conceituação por aqui seria raso demais. Na verdade, toda a sua performance enquanto voluntário vai depender da sua verdadeira motivação. O porquê você sai da cama cedo, abre mão daquele futebol, deixa de ir naquela festa na noite anterior, fica mega atrasado nas séries favoritas, ou simplesmente deixa de fazer nada, o que também é alguma coisa a se fazer no mundo de hoje…

Nesse ponto, tem um monte de gente que finge que se conhece ao dizer simplesmente: “é pra me sentir útil que faço isso”. Só lembram da parte romântica e confessável da motivação.

Se for fuçar bem, sairiam respostas mais acuradas como: “é para me sentir útil enquanto fulano esteja aqui e solteiro”, “é pra me sentir útil e valorizado pelos demais. Sem reconhecimento, não dá!”, “é pra me sentir útil até que alguém tente me corrigir. Já tô aqui de graça!”, “é pra me sentir útil aqui porque em casa tá complicado. Deixa aqueles doidos por lá”, “é pra me sentir útil nessa atividade que já é fácil pra mim mesmo. Tava com as costas doendo de tanto dormir”. Fazer o bem pelo bem e mais nada, não é algo ainda comum entre nós.

Mas o problema maior não é a existência dessas verdades veladas, de explicações incompletas. A complicação é posar de voluntário segundo uma justificativa num nível que não é seu ainda. Está longe de ser constrangedor não termos perfeitamente o mesmo pensamento, motivação e ação de Jesus em toda e qualquer atividade dirigida ao próximo. Por outro lado, todo voluntário precisa aprender a ser cada vez mais humilde pra ajudar de forma mais eficiente. Humildade também na escolha por onde começar:

Não gosta de trabalhar com idosos porque tem uns senhores mais assanhados e o lance de dar banho é muita responsabilidade? Tranquilo, comece com a inocência e a agitação das crianças.

Fica desestabilizado diante de pessoas fisicamente deformadas? Vá lá aprender a dizer “oi” na recepção sorrindo com satisfação e mudando o padrão de rugas da sua cara 🙂

Curte mais um diálogo desafiador? Deixe as crianças no parquinho com outra galera e vá atrás de grupos que trocam ideias com jovens que não tiveram boas oportunidades e com adultos que já viveram as consequências disso. Ouça-os.

Ainda não se sente confortável para falar em público? Ore. E no segredo da sua casa mental, seja o melhor palestrante em socorro às dores de alguém perante a espiritualidade.

Chega num local e, em vez de olhar a serventia do trabalho que está sendo feito, apenas critica como é feito? Coloque a mão na massa e se ofereça para melhorar aquilo que você tanto critica – afinal, você faria melhor já que tem tanto a falar.

Sem habilidades para as artes (música, pintura, teatro, poesia, etc)? Abrace alguém e sirva de inspiração aos artistas sendo um exemplo vivo da troca de energias que curam.

Tem medo do mundo porque é desconfiado de tudo? Fique em casa e comece pelo começo. Ajude a sua família.

Dando tempo ao seu tempo fica mais fácil de não largar o trabalho diante do primeiro problema só porque “já se tratava de algo voluntário mesmo“.Quando o gostar de servir é menor que o ego, não se passa da primeira dificuldade. Deixando claro a si mesmo e aos demais a sua real motivação, mostra-se maturidade e evitam-se melindres. Não seja voluntarioso, teimoso, arbitrário ou birrento com aquilo que é obrigatório na sua reforma íntima.

Com o esforço, vem a pujança pra “cortar o barato” dos idosos abusados e se manter firme segurando os velhinhos no banho, vem o olhar profundo e mais piedoso pelos irmãos em tristes condições no corpo físico, vem o interesse pela vontade de compartilhar o que sabe pela palavra, vem a força de vontade de aprender novas formas de sensibilizar o próximo, vem a coragem de conhecer a si mesmo e encarar o mundo atrás da fraternidade que Jesus viveu e vive.

E não se apoquente diante das possibilidades não concretizadas pela correria desse nosso tempo. Em vez disso, aproveite o tempo que tem. Sem pressa, mas com intensidade. Ninguém vai te perguntar quanto tempo ficou fazendo isso ou aquilo pelo próximo. O que importa é o quanto amou. Dentro dessa linha, o trabalhador da última hora (Mateus, 20: 1 a 16) é interpretado por Rodolfo Calligaris em Parábolas Evangélicas como se segue:

“De fato, não seria falta de equidade pagar o mesmo salário, tanto aos que trabalham doze horas, como aos que trabalham dois terços, a metade, um terço ou apenas um duodécimo da jornada?

Sê-lo-ia, efetivamente, se todos os trabalhadores tivessem a mesma capacidade e eficiência. Tal, porém não é o que se verifica. Há operários diligentes, de boa vontade, que, devotando-se de corpo e alma às tarefas que lhes são confiadas, produzem mais e melhor, em menos tempo que o comum, assim como há mercenários, os que não têm amor ao trabalho, os que se mexem somente quando são vigiados, os que estão de olhos pregados no relógio, pressurosos de que passe o dia, cuja produção, evidentemente, é muito menor que a dos primeiros.”

Por fim, vigiemos pra não nos escondermos atrás de desculpas do tipo: “já trabalhei demais nessa vida. Agora, só eu”. Arriscado é esse argumento pseudo-confortante vir bem na hora daquela forcinha a mais, no exato momento em que haveria um endorfina espiritual recompensando o novo degrau vencido. Lembremos que Progresso é LEI, e por conta disso a gente olha é pra frente em vez de buscar desculpas paralisantes no passado. Caso ainda porte a mínima energia, tenha mãos, saiba ler, carregar objetos, sorrir, ouvir, abraçar, chorar, etc, és útil a si mesmo, sendo o Bem para o próximo.

Caso insista em cavar o pretérito, por pura lógica, a não ser que você sofra de um mal crônico de preguiça em todas as suas vidas, é bem provável que já tenha trabalhado milhares de anos. Seja como escravo, soldado, capataz, prostituta, comerciante, bandido, arruaceiro. Dito isso, dentro da simplificação do “já trabalhei demais”, praticamente todos nós poderíamos abdicar da labuta.

E se achou muito pesado, recordemos Jesus em João, Capítulo 5.º, versículo 17:
“Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também.” Só tu que é bonitão e vai descansar cheio de energia.

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Rafael Martins

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Um comentário em “Voluntário voluntarioso

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