(6 min e 19 seg) Ser espírita e coerente nas atitudes não é trivial. São muitos inputs poderosos que a Doutrina fornece e que deveriam implicar mudanças em nossas decisões. Contudo, acabamos por usar duas lentes ao longo da vida: uma para a vida material e outra para a espiritual. O complicado é que ainda investimos bem mais na primeira por sermos escravos da liquidez por resultados. Alguns exemplos.

Simulações de cenários, planilhas, cálculos atuariais, expectativa geradora de úlceras, centenas de artigos lidos, ansiedade louca acompanhando o noticiário. Ainda faz muita parte…Especialmente quando se trata de mudanças iminentes com a Reforma da Previdência. Afinal, é bem razoável preocupar-se com os últimos anos desta vida. Sendo bem pragmático neste ponto: se a expectativa de vida subir, você pode ter que juntar um pé de meia pra 25 anos. Contudo, se mesmo essa hipótese for conservadora, talvez seja um pouquinho mais hercúlea essa tarefa e você tenha que amontoar uma grana para os últimos 35 anos de vida, sob um cenário em que o governo quer lhe arrancar cada vez mais. Daí vem a pergunta: e se em vez de 25 ou 35 anos estivéssemos a considerar um tempo infinito? Matematicamente, infinito é maior que qualquer número que você expresse com algarismos. Espiritualmente essa é a pergunta mais importante. Daí que, numa analogia simples, o plano de previdência do EU Espírito seria infinitamente mais relevante que o plano de previdência do EU Corpo desta vida. Só que não enxergamos tão longe assim.

Tanto é que intitulamos por voluntário muito daquilo que nos capitaliza para o plano de previdência espiritual. É o nível em que estamos. A propósito, a Dinamarca, país que está entre os mais felizes do mundo há 40 anos, tem 53% da sua população engajada em trabalhos voluntários. Vale a reflexão…

“Raimundo não muda mais minha filha. Não adianta tentar mudar as ideias desse infeliz.” Frase bem comum quando se trata de um velho cabeça dura fazendo qualquer besteira. Muitas vezes desistimos de qualquer intervenção sob o pretexto da imutabilidade das pessoas (O Dr. House estava errado). Mesmo uma prece deixa de ser endereçada quando damos por certo que fulano continuará errado em seu modo de pensar ou agir por conta de toda uma vida sendo como é. Só que estamos aqui justamente pra mudar pra melhor. No tempo de uma vida carnal algumas posturas são aperfeiçoadas e todo mundo consegue perceber isso. Em diversos outros pontos somos apenas sensibilizados para mudanças futuras. E há ainda uma miríade de comportamentos desejáveis que serão enfrentados somente em encarnações bem mais distantes. Só que não enxergamos tão longe assim. Daí, o que não é pra hoje, já não serve.

Quando se trata de hábitos a serem burilados, acabamos por focar, na melhor das hipóteses, somente naqueles abarcados pelo tempo de vida útil desta vida. Passou disso – encarnamos o estilo Gabriela de ser – eu nasci assim, vou morrer assim porque sou assim e ponto final. Temos que nos ligar que há muito da semeadura em que a colheita se dará sob outras vestes. Por exemplo, tenho certeza que nossos mentores nos acodem diante de vícios que carregamos por séculos ou mesmo milênios sem qualquer reação nossa a curto prazo. Algo muito mais acentuado que o seu Raimundo…Se a espiritualidade usasse as mesmas lentes que nós, nosso progresso seria bem mais lento. Quanto mais gente sair do microscópio pro telescópio, mais rápida será essa escalada evolutiva.

“Quero saúde. Mentalizo saúde. Tomo passe e imploro por saúde.” Nada complicado se reconhecer entre as aspas. O ruim é quando estamos somente entre as aspas e nada mais fazemos. Daí não somos mais que um pedinte muito chato. Vale a pena difundir aqui o caso do senhor que ganhou uma gastrite depois de querer, mentalizar e implorar por saúde com muita fé. Reclamou que só do Centro Espírita. Todavia, essa era a única maneira de mudar os hábitos alimentares daquela criatura e aí sim, portar a saúde pleiteada. Só que não enxergamos tão longe assim e acabamos por nos revelar irresignados com a nossa sorte.

Também somos bem míopes ao presumirmos o controle total dos eventos que nos cercam. Isso é falta de humildade. Para grande parte momentos de nossa vida, Deus espera uma REAÇÃO com coragem moral, paciência e resignação. Para uma outra parte é que estamos no volante das AÇÕES. Um exemplo extremo do livre arbítrio reativo é retratado nesse vídeo do filósofo Viktor Frankl, em que ele explica como sua mente o protegia durante o tempo em um campo de concentração nazista. O Viktor descobriu algo que nem mesmo a guerra conseguiu roubar dele.

A criança quer ficar pra sempre no playground. O entusiasmo é tamanho que os pequeninos não “enxergam” a fome, a necessidade de um banho, os pais esperando, a noite chegando, o pé sangrando… Por outro lado, os pais a tudo isso veem. Deus, nosso Pai, perfeito em Seus atributos, tenta dar os meios de refletirmos a ponto de mudarmos de atitudes e sermos melhores filhos. É legal, útil e necessário brincar. Faz parte do desenvolvimento da criança. Contudo, ficar pra sempre no parquinho não lhe trará boas notícias a médio e longo prazo. Frustrações virão e são necessárias.

É preciso que, de tempos em tempos, busquemos novos pontos focais. Devemos sair da zona de conforto sempre que nos percebermos nela. Só que não enxergamos tão longe assim, e chega um ponto em uma dessas zonas de conforto em que colocamos um ponto final. É o porto seguro de assertivas como “já trabalhei demais nessa vida”, “ralei muito e mereço isso” e suas irmãs de intenção.

O próprio ato de evangelizar requer aquele aperto nas vistas pra enxergar mais longe um pouquinho e prosseguir com fé. Tanto para a reação de quem primeiro escuta a lição – evangelizadores – como, é claro, dos evangelizandos/alunos. Muito da mensagem do Cristo não tem condição de eclodir ainda em nós. Ainda assim, é preciso arar a terra e não dar por perdidos o esforço, a intenção e o conhecimento direcionados à tarefa. A importância desse tripé eu já tratei no F(x) da Consciência Tranquila.

Mais pra frente, com alguns graus a menos em nossa miopia espiritual, teremos condições de vislumbrar, já com um efeito transformador mais concreto em nós, histórias como Inácio de Antióquia, do Fransciscano leproso e de um motoqueiro doidão chamado Sam Childers. Esses enxergaram e agiram além.

Inácio, segundo relatos de Joanna de Ângelis (mentora do orador espírita Divaldo Franco – livro Ante os Tempos Novos) foi uma das crianças utilizadas por Cristo no inesquecível “assemelhai-vos às criancinhas”. Na real, Inácio contava então com 4 anos, vivia nas ruas e teria sentado no colo de Jesus pra ouvir a lição. Daí que Jesus foi crucificado e João foi pra Éfeso com Maria. Tempos depois, o mais novo dos apóstolos de Jesus reencontrou Inácio já com 8 anos. Adotou-o e ensinou-o tudo o que sabia. Já adulto e doutrinado, Inácio fora capturado e levado preso por ser cristão, tendo como pena a morte perante às feras. Contudo, estava tranquilão. Chegou mesmo a sorrir ao entrar em Roma. Os soldados incomodados tiveram uma explicação mais ou menos assim: “se pra vocês, que vivem apenas da matéria, Deus reservou uma cidade esplêndida dessa, o que não estará reservado pra mim, que superei a matéria e encontrei as verdades do espírito”. Acontece que quando soltaram os leões famintos, a espiritualidade o blindou, informando-o que morrer ali seria um testemunho inexpressivo pra ele. Haveria provas bem mais ásperas. Inácio viveu mais algumas décadas e teve uma trajetória de dores similar a de Paulo. Sempre há uma nova zona de desconforto.

Já o Franciscano leproso, segundo Miramez (livro Francisco de Assis), deixou uma narrativa que deixa a gente assim meio perplexo. Em síntese, um dos franciscanos conseguiu com uma prece fervorosa remover completamente a lepra do seu corpo. Apenas alguns meses após a cura, percebeu que afloraram nele sentimentos ruins e entendeu o porquê de portar uma doença que o afastava da sociedade. Orou de novo. Dessa vez para recuperar a doença. Com isso, catalisou brutalmente seu processo evolutivo. Tal episódio é uma amostra de auto-conhecimento que nos perturba demais. Quanto mais materialistas, maior a perturbação. Entretanto, um espírita há de reconhecer coragem, lucidez e desprendimento nesse exemplo extremo.

O lance do motoqueiro doidão é retratado no filme Redenção. Um dos filmes que mais me deixou bolado. Não vou ser spoiler não. Se desse texto todo você se interessar e for sensibilizado somente pelo filme eu já vou ficar mais que satisfeito.

Como minha velha diz: “Espiritismo não é pra resolver seus problemas. Doutrina Espírita é pra saber lidar com todos eles. Quem vai resolver cada um é você.” Só que você precisa antes de tudo aprimorar a visão, desenvolver o olho de tandera, e enxergar em você tudo que vem criticando nos outros, tudo o que vai deixando pra depois, tudo o que parece difícil demais pra agora. Enfim, como audaciosamente colocado pela artista Flaira Ferro, curar-se de si mesmo.

Rafael Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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