Guilherme Costa

(3 min e 40 seg) Voltei a usar chinelo. Depois de dez anos eu voltei a usar chinelo. Não é chinelo no seu sentido mais puro, porque é uma alpargata, mas pra mim o sentimento é o mesmo. Parece besteira, mas na verdade é algo muito importante. Quero fazer algumas reflexões sobre isso. Espero que vocês gostem.

Nesses dez anos como cadeirante, vejo muitos olhares e pensamentos da seguinte forma: observando as coisas que perdi por falta de movimentos das pernas. Desde meu acidente, decidi olhar para meu potencial e as coisas que posso construir dentro das minhas limitações. Exemplo um: jogar futebol era meu sonho. Virei atleta profissional e um medalhista olímpico no mesmo ano e olimpíada que o Neymar. Exemplo dois: não subo mais escadas. Sem subir escadas já visitei 17 países diferentes e fui até em um castelo medieval. Exemplo três: fiquei tetraplégico. Sobrevivi um acidente gravíssimo e pedi a Deus pra ficar aqui independente de como seria. Trouxe essa reflexão pra trazer vocês pra perto de mim, mas quero mergulhar mais…

Enxergar a vida assim não significa que não sinta falta das coisas. Amava jogar bola de todo meu coração. Amava capoeira, dançar, jiu jitsu e por ai vai… sei que algumas coisas consigo adaptar. Tênis de mesa e gaita são exemplos disso. Outras, eu entendo que não são possíveis de adaptar. Jogar bola, namorar em pé e pular muro para correr de um ataque zumbi são exemplos disso também. Não significa que ao ver essas coisas eu fique triste, na verdade isso me alegra de ver pessoas fazendo o que amam. Só que nesse dualismo existem abismos e planícies. Existem momentos como todo ser humano. Há dias que a saudade do futebol bate. Outros a vontade de tocar gaita abstrai tudo. Convivo muito bem com meu passado, entretanto sempre que possível foco no presente.

Um sonho que tinha desde 2006 se realizou esse ano: usar chinelo. Nossa senhora, como sentia falta de usar chinelos! Andar arrastando o chinelo, coisa deliciosa. Depois da lesão nunca mais usei por um simples motivo: ele escapa do pé, porque não tenho força nenhuma para prendê-lo com os dedos por exemplo. Havaianas com alça atras eu acho muito feio, igual crocs e sandália raider. Me contentei que nunca mais iria usar. Final do mês passado, fui fazer palestras no sul do país e descobri as alpargatas: uma espécie de chinelo de pano (gaúchos não sintam-se ofendidos) tradicional principalmente no Rio Grande do Sul. Vi que existia a possibilidade de usar e resolvi tentar. Ao chegar tive que adaptar minha alpargata para que não saísse do pé. Depois fazer uma adaptação em cima de adaptação para não machucar o pé. Agora parece que deu certo. Chega de blá blá blá e vamos ao que interessa.

Vou fazer uma analogia de proporções muito maiores, mas que ao mesmo tempo é proporcional, pra vocês entenderem o que estou sentindo. Há alguns anos uma grande amiga ex-bailarina, que já partiu desse mundo, voltou a dançar depois da lesão. Lembro-me dela me contando com detalhes de como tinha sido. Sensações, sentimentos, emoções etc. É como se eu movesse de novo uma perna e voltasse a bater embaixadinha. Gui, calma, olha suas comparações… ex-bailarina dançando ou ex-boleiro voltar o contato com a bola, essas coisas nunca se compararão a usar um chinelo. Aí que vem um engano. Lembro a todos que só tinha 14 anos quando me acidentei, estava em formação e minha vida estava se moldando ainda. Minha vida era: futebol, mulheres, escola, dormir e comer. E realmente amava usar chinelos, portanto reconquistei algo grande. É uma surpresa que ganhei depois de muita busca e talvez ter até desistido de achar uma solução.

A grande sacada desse texto é na viagem que fiz com isso tudo. Moçada, a vida é feita de coisas simples. A gente precisa de muito pouco para ser feliz. Agora, sabe o que dá sentido nas coisas grandes ou pequenas que você tem? A gratidão por elas. Podia ser uma Ferrari ou um chinelo. Depende de como você enxerga o todo. Meu estilo de vida é em busca de simplicidade. Para essas coisas dou muito valor. São sentimentos e emoções que a vida te dá que nunca mais serão os mesmos. Quer me presentear? Faça questão da minha presença. Faça um presente com as próprias mãos. Uma comida boa sempre é bem vinda. Dá-me um cadinho do teu tempo, carinho e atenção. Pronto, me fez feliz. Sou um cara apaixonado por momentos, por isso meu snap não é muito movimentado, gosto de guardar muitas coisas na memória. Como o primeiro dia de alpargata.

Hoje, falo pelo G. Costa. Por favor, não generalizem ou comparem dores e entendimentos. Cada um tem sua história e seu tempo. Sua opinião sobre o mundo. Cada lesado medular sabe das coisas que passam por dentro dele. Compartilho nesse texto minha alegria por encontrar felicidade em algo simples e pequeno, porém de alta relevância pra mim. Busquemos a simplicidade. Sejamos gratos pelo o que temos. Realizemos nossos sonhos com gana por novos caminhos. Reinventemos a nós mesmos todos os dias. Não quero chorar pelo o que perdi, prefiro sonhar com o que posso conquistar.

Guilherme Costa

Um comentário em “Chinelos pra dentro de si

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