Pristina é muçulmana e mora em Kosovo. Diante da penúria e solidão, recorreu à prostituição na exata dose que assegura o sustento dos seus dois filhos.

Arnaldo é ateu e destacado profissional na área da neurofisiologia. Tem o hábito de só aceitar casos cirúrgicos compatíveis com a sua alta habilidade técnica. Aquém ou além disso, ele “deixa” o caso na mão de outro colega menos experiente.

Eurípedes foi militar e se aposentou aos 48. Goza de saúde invejável e possui uma estabilidade familiar bastante rara. Estudioso da Doutrina, auxilia na Centro Espírita uma vez por semana. Não passa dessa cota de dedicação ao próximo (1x por semana), tendo em vista a árdua e desgastante contribuição à pátria ao longo da carreira exemplar.

Ateu, muçulmano ou espírita. Pouco importa. Os três possuem as Leis Divinas escritas lá dentro da consciência de cada um. E como a gente sabe se teremos ou não a consciência tranquila?

F(CONSCIÊNCIA TRANQUILA) = INTENÇÃO, ESFORÇO, CONHECIMENTO

São essas as três variáveis que reputo mais adequadas pra explicar aquele pouso da cabeça confortável no travesseiro. Vejamos como alguns recortes das Obras Básicas ilustram o mecanismo desse tripé.

INTENÇÃO

(OLE*) – 658. Agrada a Deus a prece?

“A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, pois, para Ele, a intenção é tudo […]

(OLE) – 670. Dar-se-á que alguma vez possam ter sido agradáveis a Deus os sacrifícios humanos praticados com piedosa intenção?

“Não, nunca. Deus, porém, julga pela intenção. […]

636. São absolutos, para todos os homens, o bem e o mal?

“A lei de Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende principalmente da vontade que se tenha de o praticar. O bem é sempre o bem e o mal sempre o mal, qualquer que seja a posição do homem. Diferença só há quanto ao grau da responsabilidade.

672. A oferenda feita a Deus, de frutos da terra, tinha a seus olhos mais mérito do que o sacrifício dos animais?

“Já vos respondi, declarando que Deus julga segundo a intenção e que para ele pouca importância tinha o fato. […]

949. Será desculpável o suicídio, quando tenha por fim obstar a que a vergonha caia sobre os filhos, ou sobre a família?

“O que assim procede não faz bem. Mas, como pensa que o faz, Deus lhe leva isso em conta, pois que é uma expiação que ele se impõe a si mesmo. A intenção lhe atenua a falta; entretanto, nem por isso deixa de haver falta.

954. Será condenável uma imprudência que compromete a vida sem necessidade?

“Não há culpabilidade em não havendo intenção, ou consciência perfeita da prática do mal.”

 

Os recortes acima dão o tom do peso que a intenção comporta. Tal variável funcionaria como o canal direto, particular e constante com Deus, já que absolutamente tudo que fazemos tem alguma intenção. A medida em que tal intenção caminha de você para o próximo, tem-se a abnegação sendo construída. Gráfica e toscamente, seria algo do tipo:

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ESFORÇO

“Ah! Dei tudo de mim!”. Isso costuma fazer muito sentido pra desonerar nossa consciência de eventuais remorsos. É exatamente nesse sentido que se alinha a Doutrina Espírita:

(OLE) – 683. Qual o limite do trabalho?
“O das forças. Em suma, a esse respeito Deus deixa inteiramente livre o homem.”

(OLE) – 642. Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

646. Estará subordinado a determinadas condições o mérito do bem que se pratique? Por outra: será de diferentes graus o mérito que resulta da prática do bem?

“O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo. Nenhum merecimento há em fazê-lo sem esforço e quando nada custe. Em melhor conta tem Deus o pobre que divide com outro o seu único pedaço de pão, do que o rico que apenas dá do que lhe sobra, disse-o Jesus, a propósito do óbolo da viúva.”

No caminho do sono dos justos, também o esforço pode ser representado num eixo X-Y. Tudo o que foi dito acima encaixa perfeitamente com a célebre frase de Kardec, em que o codificador diz reconhecer-se o verdadeiro espírita “pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.

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CONHECIMENTO

O conhecimento é por certo a variável que maior influência comporta sobre o grau de tranquilidade da consciência face as nossas decisões. Interessante que há uma certa endogeneidade, visto que o conhecimento também pesa sobre nosso nível de esforço e sobre a intenção que colocamos em nossas atitudes. Da Doutrina, há alguns excertos interessantes sobre esse terceiro fator.

(OLE) – 628. Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de toda gente?

“Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado.

192. Pode alguém, por um proceder impecável na vida atual, transpor todos os graus da escala do aperfeiçoamento e tornar-se Espírito puro, sem passar por outros graus intermédios?

“Não, pois o que o homem julga perfeito longe está da perfeição. Há qualidades que lhe são desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o comporte a sua natureza terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. Dá-se com o Espírito o que se verifica com a criança que, por mais precoce que seja, tem de passar pela juventude, antes de chegar à idade da madureza; e também com o enfermo que, para recobrar a saúde, tem que passar pela convalescença. Demais, ao Espírito cumpre progredir em ciência e em moral. Se somente se adiantou num sentido, importa se adiante no outro, para atingir o extremo superior da escala. Contudo, quanto mais o homem se adiantar na sua vida atual, tanto menos longas e penosas lhe serão as provas que se seguirem.

 

 

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Fiz questão de representar os três gráficos com um trecho linear e um segundo exponencial (pode revisitar as figuras porque eu não tenho a manha do desenho). Isso porque entendo que a região da transição (quadradinho hachurado) entre esses dois regimes expressaria a expansão de consciência ou da mente a novas ideias, como uma vez colocado por um excepcional físico judeu, ganhador do Nobel pela seu pesquisa com efeito fotoelétrico.

Além disso, ancorei cada uma dessas transições a assertivas de Jesus. Nessa medida, o conhecimento é a verdade que liberta, o esforço é individual e proporcional às obras que buscamos executar e a intenção depurada não se correlaciona com a expectativa da gratidão ou de reconhecimento. A materialidade das coisas estaria atrelada à faixa linear, ao passo que a espiritualidade já se vincularia ao domínio exponencial. Tudo a seu tempo…

Quer dormir tranquilo? Aproveite os instantes anteriores ao sono pra dar o máximo de si, com uma intenção confessável a todos sem qualquer constrangimento, tudo isso, de forma compatível com o nível de discernimento que já alcançou. Isso para cada uma das atividades que faz, para cada uma das pessoas com quem interage e para cada pensamento.

Ou, segundo o roteiro mais difundido da Doutrina Espírita:

(OLE) – 919. Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?

“Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”

a) — Conhecemos toda a sabedoria desta máxima, porém a dificuldade está precisamente em cada um conhecer-se a si mesmo. Qual o meio de consegui-lo?

“Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma. Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus e ao seu anjo-de-guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria. Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: ‘Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?’

“Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.

“O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. Mas, direis, como há de alguém julgar se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio para atenuar as faltas e torná-las desculpáveis? O avarento se considera apenas econômico e previdente; o orgulhoso julga que em si só há dignidade. Isto é muito real, mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos. Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não na podereis ter por legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de duas medidas na aplicação de sua justiça. Procurai também saber o que dela pensam os vossos semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos, porquanto esses nenhum interesse têm em mascarar a verdade e Deus muitas vezes os colocam ao vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos com mais franqueza do que o faria um amigo. Perscrute, conseguintemente, a sua consciência aquele que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim de extirpar de si os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas daninhas; dê balanço no seu dia moral para, a exemplo do comerciante, avaliar suas perdas e seus lucros e eu vos asseguro que a conta destes será mais avultada que a daquelas. Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.

“Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna. Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações temporárias? Pois bem! que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços? Sei haver muitos que dizem ser positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a idéia que estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer que compreendais esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa alma. Por isso foi que primeiro chamamos a vossa atenção por meio de fenômenos capazes de ferir-vos os sentidos e que agora vos damos instruções, que cada um de vós se acha encarregado de espalhar. Com este objetivo é que ditamos O Livro dos Espíritos.”

Se você chegou até aqui já não vai ligar, tampouco querer julgar as três situações colocadas no início do texto.

*OLE = O Livro dos Espíritos

Rafael Martins

 

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