(3 min 33 seg) Esse texto surgiu dentro de um propósito de ajudar um grande amigo com uma palestra.

Vai imaginando. Todo dia a mesma coisa. O mesmo trânsito. O mesmo percurso. As mesmas ideias. O mesmo sinal demorado. O mesmo mendigo. Só o chokito que era diferente. Sim, o chokito nunca era o mesmo.

Baiano mantinha uma estratégia pra aliviar um pouco sua rotina cansativa. Mantinha sempre guardado no porta-luvas do carro uma barrinha de chokito. A correria do cotidiano o fazia esquecer temporariamente daquela fonte energética, de modo que somente no trânsito, diante daquele sinal, tinha a grata recordação do chocolate. Estava sempre com fome, sem nada pra fazer. Abrir o porta-luvas fazia parte de um ritual que o tranquilizava.

Contudo, a barrinha nunca “descia redonda” por conta da presença de um insistente e pontual mendigo que, reiteradas vezes, depositava um olhar de esperança meio perturbado “no tio gordinho do chokito”.

O constrangimento era tanto em dizer um não que Baiano se incomodava até mesmo com o olhar de reprovação dos outros motoristas que habitualmente acompanhavam toda aquela cena onde um quase não fala e o outro queria era não ouvir.

Por muito tempo, sempre os mesmos atores: o mendigo, Baiano, as barrinhas, o semáforo, os motoristas-testemunhas e o tempo – um dos protagonistas desse ensaio.

Após um espetacular desempenho do nosso último personagem, Baiano teve uma ideia. Dobrar o estoque de chokito e, assim, suprir parte das necessidades do mendigo. E isso funcionou muito bem por um bom tempo. Só que um dia Baiano esqueceu da barrinha extra.

Diante desse cenário, novamente perante o morador de rua, Baiano podia ter diversas reações. Cada uma delas conferindo um grau de paz único a sua consciência. A vantagem é que a escolha só dependia dele. A questão é que ficaria preso aos efeitos dessa decisão.

O vermelho do sinal nunca demorou tanto. A janela do carro ainda fechada. O mendigo meio sem entender porque aquele gordinho gente boa, ultimamente tão generoso, estava com o olhar perdido na direção do porta-luvas. Seria uma gula repentina? Baiano teve vários pensamentos:

Pensou que há pessoas que se irritam com aquele mendigo sem ao menos olhar pra ele, quiçá conversar. Xingam tudo, fingem que estão no telefone. Um estágio que vai da ofensa gratuita à inércia dilacerante.

Pensou que há pessoas que até oferecem alguma coisa, mas só quando tem alguém vendo e quando seja algo bem além do supérfluo, tipo restos dos restos de festinha de criança. Um degrau desse “teatro” onde todo pagamento é à vista.

Pensou que há pessoas que oferecem alguma coisa sem ligar pro testemunho alheio, mas nunca tirando do que lhes faz falta. Situação essa que abarcaria muita “gente boa”, mas, também muita gente acomodada.

Pensou que há pessoas por aí livres daquele trânsito e que já ficariam felizes com a chance de ajudar alguém com todo o ferramental que tivessem: olhar, sorriso, ouvido, alguns segundos, uma barrinha, um “como você está?” ou mesmo A única barrinha de chocolate.

Baiano abaixou o vidro da janela e perguntou: “como é seu nome amigão?”

“Paulo. Meu nome é Paulo” – arrematou o mendigo rapidamente, com um olho no sinal e o outro em Baiano, o qual nunca tinha dirigido a palavra ao depositário fiel do chokito.

Continuou o mendigo. “Minhas filhas sempre agradecem o presente do tio do chokito”.

“Suas filhas?” – Baiano redarguiu.

“Sim. sempre levo o chocolatinho pra elas. Yasmim, Beatriz e Carolina ficam muito empolgadas com essas raridades”. Um oco criou-se na então toda articulada linha de pensamento do Baiano…

Cada um dá o que tem. Esse raciocínio aplica-se ao plano moral muito antes de ser aplicado ao limitado plano material. Naquele instante, tendo a providência contribuído por meio da “relatividade do tempo”, Baiano pôde pensar e constatar que aquele homem tinha muito mais que ele, independente do chokito.

Aprofundando mais um pouco essa história e perceberíamos que também a irmã mais velha, Beatriz, nunca tinha experimentado o chokito, para que as mais novinhas tivessem mais em função do seu menos.

O Bem é um recurso disponível para todos, todo o tempo. Até mesmo um chokito é meio para a reforma com a qual nos comprometemos. A trajetória desse chocolate oferece vários aprendizados, tanto que esse post encaixa-se muito bem no Óbolo da Viúva do Evangelho de Marcos e Lucas. Mas falarei melhor disso em outro texto numa abordagem mais gráfica e quantitativa…

O Sinal abriu. Mesmo com um buzinaço houve um ganha-ganha moral depois que Baiano, sensibilizado pelo rápido diálogo, perguntou-se  mentalmente “Senhor, que queres que eu faça? enquanto entregava a barrinha do dia ao pobre mendigo rico.

 

Rafael Martins e Guilherme Costa

 

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