(6 min) Menos de 12 m2 de espaço. Todos os colaboradores são inexperientes. Ninguém tem qualquer remuneração pecuniária. Rotatividade necessariamente alta. Concorrentes mais qualificados. Responsabilidade toda sua. Justamente por isso tudo, a experiência de ter sido um empresário júnior foi onde tive o ambiente mais propício pra desenvolver a minha confiança.

Estava no meio do curso da Engenharia e decidi, juntamente com uns amigos, participar do processo seletivo da Concreta. Eu, particularmente, já tinha tido uma experiência com a iniciação científica e estava a fim de testar algo novo. Nesse ínterim, sempre estive também estagiando em cenários bem distintos: de projetos a construção, de órgão público a empresas privadas. Nada, contudo, se equiparava ao dia a dia da Concreta.

Foram dois anos de empresa júnior em que fui remodelado por dentro. Nosso mindset era exatamente isso aqui (pensamento do Frank Roosevelt):

Se te perguntarem se podes fazer um trabalho, responda que sim e ponha-se depois a aprender como fazer

Era isso todos os dias. Negociando como se já fosse a minha versão de sucesso no futuro, para depois correr atrás do conhecimento necessário. Antes de desligar o telefone já estávamos atrasados.

Além disso, várias situações me forçavam a enfrentar o medo de errar. Mas ser empresário júnior é talvez a única chance de fazer uma cagada e não dar uma merda tão grande assim. Afinal, você não tem salário, dificilmente ficaria mais do que 2 anos na empresa, entre outras particularidades. Eu sempre lembrava disso pra jogar no modo “all in“.

Lidei com um contador que mais parecia um bicheiro pelo tanto de ouro pendurado nos braços e sempre com a sensação de que o cara estava querendo fazer alguma falcatrua. Bem, nunca fui implicado em nada ilegal.

Tomei cano do Responsável Técnico de um projeto que tinha como cliente um Juiz, o qual, naturalmente, questionou a validade legal de um laudo que não dispunha da assinatura de um profissional habilitado. Se escrevo isso aqui é porque houve como contornar a questão de algum modo…

Fui questionado por alguns membros por conta de uma gestão centralizadora. De fato, priorizávamos a empresa sempre que os interesses individuais de alguém estivessem no caminho. Política de choro e ranger de dentes para a empresa crescer e não ter que fechar as portas novamente, como já tinha acontecido em uma gestão anterior. Chegamos até a contratar o pessoal da empresa júnior de Administração para tentar nos ajudar com os conflitos internos que se estabeleciam entre Diretores e membros. Essa consultoria foi muito mais uma decisão diplomática do que qualquer outra coisa. Tanto é que o relatório não nos trouxe nenhuma surpresa. Não estávamos preocupados em agradar, apenas em crescer com quem topasse nosso estilo de condução. E tinha que ter coragem para admitir isso.

Eram várias conversas tensas para um estudante de vinte e poucos anos. Não gostava de nenhuma delas, mas sabia que não tinha jeito. Tinha que encarar tudo.

Naturalmente, a condução “topando qualquer parada” era bastante estressante. Simplesmente não havia espaço para reclamar. Não era raro membros de fora da diretoria pleitearem afastamento temporário por conta de semana de provas e estágio. Isso soava como pedido de demissão, atestado de fraqueza na cabeça dos Diretores. Mais que tudo isso, era só o medo sendo maior do que a disposição em enfrentá-lo. Na real, medo de bombar na prova iminente. Uma mistura de pensamento focado no curto prazo óbvio e falta de perfil também. Darwing fez o seu papel…

Todos os diretores estagiavam, estavam em semestres mais complicados (fazendo na média 32 créditos) e ainda namoravam (o que consumia literalmente todos os eventuais créditos de vida restantes). Eu achava que isso era exemplo mais que suficiente pra todos persistirem nos seus desafios diários dentro da empresa. Eu estava errado. Precisava de coragem pra admitir isso. Eu, mesmo como presidente, simplesmente não conseguia motivar uma porção de pessoas.

O diretor de projetos literalmente estagiava no horário de uma disciplina da cadeira de Geotecnia. Detalhe: o projeto final dele foi em Geotecnia e ainda ganhou um prêmio de melhor dissertação. Considero mais coragem do que falta de bom senso isso. Nunca ninguém, naquelas condições, havia tentado o mesmo. Eu mesmo não teria ido tão longe.

Teve uma época que a reunião semanal da diretoria era segunda começando meia-noite. Era o tempo que tinha e no início da semana ainda tínhamos energia para encarar esse horário maluco. A vantagem foi que aprendemos a ser extremamente objetivos e assertivos diante da pressão do sono, das decisões a serem tomadas e das namoradas. Éramos francos uns com os outros a ponto de inexistir qualquer melindre. Todos os erros eram expostos entre pizzas e bocejos.

Nesse cenário, a Diretoria sofria demais para delegar algo para alguém porque, salvo exceções (esses casos eram tão raros que eu inclusive me casei com uma dessas exceções), ninguém enxergava um projeto da empresa como nós. Viam nas dificuldades uma barreira, as muralhas da Babilônia, enquanto nós víamos uma escada com molas para a versão “na vera” da vida, do mercado. Era coragem o gatilho pra mudar a forma de enxergar as coisas.

Um dia ligaram lá na empresa pedindo indicação de algum professor do Departamento de Engenharia Civil que sacasse de Gestão Predial ou Facility Manager (versão chique). Falei “na tora” (expressão que mais empregávamos) que nós dominávamos tal assunto e que não precisaria de nenhum professor não. Depois de algumas negociações inacreditáveis a FUB nos contratou para dar aula sobre gestão de contratos e manutenção predial (cerne desse curso). Imagine que havia alunos desse curso que eram engenheiros formados há 30 anos enquanto que o corpo docente era integrado por alunos no sétimo semestre (a diretoria da Concreta à época). Depois de um início absolutamente conturbado (ante o choque com as nossas caras de “não vimos o Zico jogar”) fomos elogiados pelo conteúdo rico e exemplos trazidos, fruto das nossas pesquisas (sempre da noite anterior) e experiência nos estágios e na própria Concreta. Faltou só algum cumprimento pela serenidade diante do medo de passar uma vergonha incrível.

Outro grande aprendizado foi nos processos seletivos que conduzimos, entrevistando cada um dos interessados. Posso afirmar ser das atividades mais complicadas escolher alguém. Fomos enrolados por uma galera que não demorou muito e se mostrou nada mais que nada para os interesses da empresa. Isso ficou especialmente complicado depois que integrar uma Empresa Junior rendia até 12 créditos em matérias optativas. Essa outra conquista da nossa época acabava atraindo uma falange de repetentes desesperados por formar e sedentos por esses créditos, mas que em nada contribuiriam de fato. Mais uma vez coragem pra começar algo que era tão desgastante para um tipo de gente bem tosca nas questões de relacionamento pessoal.

Indo “na tora” tivemos muitos resultados expressivos. Projetamos a cobertura em treliça metálica do Bezerrão, fizemos o primeiro projeto internacional da empresa ao mandar dois membros pro Paraguai. Incorporamos o pessoal de Arquitetura da Unb à Concreta.  Além de uma pancada de cursos para capacitar a galera. Por mais inabilidades que tivesse, o crescimento era exponencial. No final das contas, não tinha medo de nenhum medo.

Hoje, colaboro com a empresa sendo RT de alguns projetos, dando cursos e palestras. O que mais tento enfocar é a oportunidade de cada um poder ser tão phoda quanto deseje. Se acreditarem nisso já será sensacional.

O mais gratificante disso tudo é visitar hoje a empresa e constatar serem todos lá muito melhores do que eu fui. Aprenderam a crescer de uma forma mais humana e profissional. No último processo seletivo foram mais de 240 graduandos interessados. Na efetivação dos trainees tinha um monte de pais no auditório. Na minha época, nem eu mesmo convidaria minha mãe pra minha efetivação. Não tinha coragem, nem contexto, pra tanto rsrsrs.

Ainda tenho muita serventia pra empresa e adoro compartilhar o que venho aprendendo. Meu sonho, contudo, é ser cada vez menos útil. Sim. Essa galera sinistra que hoje está na empresa vai se formando e eu tendo a acreditar que também terão vontade de compartilhar e retroalimentar a Concreta. Daí, não muito longe, serão vários engenheiros mais que experientes compartilhando apenas sua especialidade com os graduandos mais corajosos do seu tempo. A fábrica não pode parar.

Rafael Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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