Rafael Martins (3 min e 38 seg) Dei aula pra deficientes visuais durante um ano.  Gente que nunca enxergou e outros tantos que perderam a visão ainda crianças. Mudei um pouco a forma de ver cada um dos meus dias.

Eu estava em casa pregado no sofá esperando aquele sono pesadão me derrubar depois do almoço. Só que vi uma chamada no DFTV sobre a necessidade de voluntários no Centro de Ensino Especial para Deficientes Visuais – CEE DV (612 sul; 3901-7607; 99298-9537)*.

Daí tava lá a matéria mostrando uma galera de óculos escuros, bengalas e alguns minguados colaboradores lendo. A parada era só ler mesmo. Não precisava nem ter a voz bonita. Podia inclusive ser analfabeto funcional. Tudo na base da boa vontade.

Como tenho o gene da docência na veia (conto um pouco disso aqui em “Seis meses de férias das férias“), me desafiei a ir lá, tentar acreditar em algo que via na televisão, e me oferecer pra dar aula naquilo que eu já estava habituado: matemática, física e química. Queria algo mais que só ficar lá lendo apostila de concurso e romances.

Dia seguinte estava lá. “Vim aqui pra dar aula. Vi a matéria na TV. Como funciona?“. Deixei uns horários disponíveis e prometeram me ligar assim que houvesse aluno. A funcionária que organizava tudo por lá ficou mega empolgada porque eles eram extremamente carentes de professores nessa parte de exatas.

Rápido, mas bem rápido mesmo vi que eu ia ter uma experiência deprimente se não me reinventasse por completo como professor. Uma pessoa que enxerga não consegue ter uma reação facial tão sutil e ao mesmo tempo tão impactante quanto um cego diante de um silêncio demorado. Os alunos sacavam tudo. Eu me sentia mais exposto do que diante da minha mãe me encarando naquela idade em que nossa burrice é diretamente proporcional à inteligência que a gente acha que tem.

Aula das Leis de Newton? Todo mundo sentado. Uns lendo. Outros ouvindo. Um livro cheio de figuras, fórmulas e texto para eu decifrar…

Levanta Priscila – uma aluna que nasceu cega e sorria o tempo todo – me dá a mão que a gente vai dar um rolé. Você vai entender o que é inércia numa voltinha de carro comigo“. Pessoal ficou meio encabulado, mas me autorizaram a sair com a dedicada estudante. E foi muito produtivo. Negociando com os radares e aproveitando a falta de trânsito fiz umas barbeiragens super didáticas a ponto da Priscila reconhecer meu esforço. Torci pra passar uma ambulância e já fazer um gancho no efeito doppler, mas não rolou. Pra compensar a incentivei a brincar com a mão no vento pra sentir o lance da resistência do ar. Tipo isso aqui embaixo:

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Seu João Quintino* tocava violão e competia no xadrez. Uma dia ele me perguntou: “Você toca? Você joga?” Todo fim de ano eu cogito de inserir essas duas coisas nas minhas metas desde então. Contudo, até hoje não priorizei nenhuma dessas atividades.

O mesmo Seu João morava em Unaí (mais de hora no baú só pra assistir a aula), tinha 65 anos e ainda era mó mulherengo. Quieto e num canto paradão, ele aparentava ter uns 85 anos, mas quando se movimentava ou abria a boca a idade ia pra 45. Cego desde os quatro anos. Ele tinha muita paciência comigo, tanto que vivia rindo dos meus “peraí que eu to pensando como vamos ver isso“. Depois de umas cinco aulas essa frase começou a ir e vir por telepatia mesmo.

Da mania dele de ficar dedilhando e batucando na mesa eu vi uma ferramenta em potencial. “Seu João, vou precisar tocar as suas mãos pra gente entender junto esse lance de corrente elétrica, ok?” Fui meio otimista já que precisei também dos antebraços dele pra explicar conceitos como corrente, diferença de potencial e resistência elétrica. Campo elétrico foi uma metáfora muito forçada utilizando um ventilador que tava ali perto da gente. Tinha voluntário que me olhava meio desconfiado quando me valia desses recursos mais inusitados. Eu nunca liguei. Só me interessava o olhar dos alunos, o que transparecia na respiração não sonolenta, nas sobrancelhas arqueadas, num sorriso que cavava rugas até o cantinho dos olhos, no tom de voz que me dava um voto de confiança.

Com o tempo comecei a levar uma parafernália de objetos de casa no intuito de conseguir criar uma abordagem útil sem ter que ficar contemplando tudo ao meu redor. Vai imaginando como um isqueiro, bolinhas de gude, ralador, fio dental, seringa, giz de cera, soro elástico, e até uma pedra me ajudaram a ajudá-los. Lembrar que à época iphone não era commoditie, tampouco havia essa enxurrada de aplicativos que pensam por nós.

Claro que em vários assuntos ficava angustiado por me ver impotente a ponto de não conseguir de jeito nenhum tirar algo da manga. Até hoje penso como seria uma aula bacana de polinômios para alguém que não sabe a diferença entre azul, amarelo, preto e branco.

O interessante é que com curiosidade bem direcionada você sempre acha alguém anos-luz a sua frente que te serve de inspiração. Exemplo disso é esse professor cego que fez um livro mostrando como ensinar física pra cegos.

Como dizia um cara que viu muito além do seu tempo:

A imaginação é mais importante que o conhecimento.

* Só pra repetir mesmo. Vai que você liga – Centro de Ensino Especial para Deficientes Visuais – CEE DV (612 sul; 3901-7607; 99298-9537).

* os alunos citados tinham outros nomes, os quais foram preservados.

 

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