Faltavam menos de 6 meses para os jogos paralímpicos quando o Guilherme Costa me convidou para ajudá-lo via processo de coaching. Era algo muito diferente, e, ao mesmo tempo, muito próximo do tipo de desafio que me move para eu dizer não.

Só pra contextualizar:

O Guilherme aos 14 anos foi atropelado por um carro a mais de 100 km/h 😦

Como ele mesmo diz:

Foram dois meses de U.T.I, depois 4 meses internado no Hospital SARAH, duas paradas cardíacas, 7 cirurgias, 7 bactérias hospitalares, 20 dias em coma, perdi 30 quilos e fiquei tetraplégico, essa é a parte boa

Depois da parte boa, o cara precisou e decidiu se reinventar. O tênis de mesa teve um papel fundamental nisso, pois possibilitou transformar o prêmio de estar vivo em medalha paralímpica: uma trajetória verdadeiramente vitoriosa.

Retomando a parte do coaching…

Após muito estudo, perguntas, reflexões, silêncio, testes, técnicas, observações, adaptações, decepções e vitórias, o objetivo foi cumprido. O jovem atleta pôde voltar pra casa com o brilho da medalha de bronze no peito após sua primeira paralímpíada. Mais que isso, o mesatenista manauara foi feliz fazendo o que ama. Entrou no flow do Csikszentmihalyi (o nome do cara é esse mesmo, não tô de sacanagem – veja a partir de 3:15, ou 15:30 se você for muito agoniado).

Da trajetória de mútuo aprendizado sobressaíram alguns pontos que compartilho a seguir:

1. Há sensações incríveis que nós, pessoais “normais”, não merecemos e que são intrínsecas a esse naipe de super-atletas. Pessoas diferenciadas têm sensações diferenciadas. Inspire-se com elas. Saia da inércia. Rale no limite de suas forças. Pronto. Você terá prestado para alguma coisa. Talvez aí alguém te considere além do normal. No caso do Guilherme a ralação incluiu 5 horas de treinamentos diários, fisioterapia, natação, coaching, psicóloga, musculação, meditação, nutrição, estudo, sono adequado, entre outras coisas.

2. A cura do “mimimi” e diversos tipos de melindres que têm tornado o mundo um lugar medonho e chato perpassa por alguma pitada do modo de encarar a vida desses atletas.

3. Pula. É preciso saber quais batalhas não disputar para vencer a guerra.

4. E se o pneu da sua cadeira de rodas furar durante um jogo? Relaxa, que isso é tipo uma escarrada qualquer pra um jogador de futebol. Então “siga la pelota

5. Sorria sempre. Pode ir do sarcasmo até a mais genuína gargalhada. Mesmo quando estiver sério, lembre-se de sorrir com a alma pra ficar leve por dentro. Estar aqui já é vantagem.

6. “Eu amo isso. Eu amo o esporte.” Tão simples quanto eficaz a motivação do Guilherme ser o Guilherme. Encontre a sua. Sem saber O porquê não é muito inteligente se mexer.  O link desse item tem aplicabilidade maior do que se imagina.

7. Não ponha seus medos e aflições debaixo da cama junto com o Freddie. Enfrentando as suas fraquezas é que você fica marginalmente mais forte que a média. Melhorar somente no que você já é bom é para os humanos comuns e em certo ponto, acomodados. Como diria o filósofo Eduardo Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos pra mudar o que somos“. Use o estresse a seu favor (link contraintuitivo – vale a pena).

8. Faça e aprenda várias coisas. Viver bem é tentativa e erro com serenidade e simplicidade, não pensando só em si mesmo. Além de reduzir a chance de você oferecer uma pauta chata, aumenta-se seu repertório e sua probabilidade de combinar experiências de forma diferenciada. O Guilherme sempre que pode toca gaita, compõe músicas, participa de trabalhos voluntários e dá palestras, entre outras atividades, como a faculdade de Direito (trancada por conta da prioridade das Paralímpiadas).

9. Entenda que na vida há problemas tipo PS4 e tipo MegaDrive. Em uns você vai retomando a questão de onde parou. Noutros, você precisará resolver numa tacada só ou precisará resetar tudo – novo mindset. O Guilherme, ao melhor estilo do Touro Miúra ou Rafael Nadal (monstro do Tênis), precisou dar reboot e voltar com tudo, porque individualmente nem ele, nem os outros dois atletas da equipe brasileira mandaram tão bem. Vida nova na disputa de equipes!

10. Uma praia é um bom lugar pra se pensar em coisas importantes. Tire o tempo que precisar pra se conhecer melhor.

11. Ponha energia no seu olhar. O resto do mundo precisa captar muito de você só ao te encarar. Ou você consegue imaginar alguém foda com um olhar bosta?

12. Use seu corpo a seu favor. Se preciso, comece fingindo até incorporar naturalmente a fluidez da versão vitoriosa que enxerga de si mesmo lá na frente. Algo como um dopping postural lícito. Não faz mal.

13. Aproveite. Todos os segundos são oportunidades para serem levadas com autoconfiança. O Guilherme na disputa do bronze enfrentou a equipe então tricampeã paralímpica. Pra quê melhor? Um baita tempero pra medalha de bronze em disputa.

14. Saiba o que é pra fazer, o que é pra anotar, o que é pra delegar e o que é pra descartar. Quando? Sempre. Alocar tempo pra mapear isso lhe dará um tempo que a maioria não tem.

15. Persista no que você sabe que precisa fazer, ainda que sozinho. Toda a ralação do Guilherme foi trilhada com vários momentos de solidão e silêncio mental. Mas ele buscou o nível de esforço que ele se convenceu que precisava. Tudo ao melhor estilo Phelps.

16. Use absolutamente tudo que puder a seu favor. Seriados são a nova febre da humanidade? Encarne a sabedoria, observação, estratégia e olhar do Ragnar Lodbrok de Vikings e vá à luta se você quiser ser O Rei da sua vida.

Ah! Por que “N”aprendizados se eu numerei?

Porque ainda estou aprendendo com o Guilherme Costa, o que aliás traz mais um item para essa lista

17. Melhoria contínua!

Muito obrigado Guilherme Costa, que além de tudo isso, ainda ajudou na revisão desse post!

tio-gui

 

 

 

2 comentários em ““N” aprendizados com um medalhista paralímpico

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