Emendei uma licença capacitação com mais três meses de férias acumuladas. Fiquei 180 dias longe da minha ocupação de servidor público. São as regras (imperfeitas) do jogo que eu simplesmente aproveitei. Só que nunca fui tão produtivo. É isso mesmo. Deixa eu explicar isso aqui e quem sabe inspirar mais alguém.

Verdade que tive dificuldade em responder amistosamente quando, no retorno ao funcionalismo público, perguntavam-me: “iae, não ficou cansado de não fazer nada?” Bem complicado pra quem se cansou pelos motivos diametralmente opostos lidar com esse questionamento padrão do mundo medíocre. Tem gente que acha que eu voltaria todo atrofiado por ter ficado colado no sofá esse tempo todo. Essa experiência eu já tive lá no início da faculdade. Mas já passou. Todo o poder e glória pra minha esposa que me mudou pra melhor. E aqui não vale aquela frase batida “atrás de um grande homem…”. Mais apropriado dizer que cercando um cara esforçado há uma mulher sensacional.

Retomando, deixo aqui o registro, com alguns comentários, do que fiz pra incentivar um aproveitamento das férias de uma forma mais inteligente. Tenho certeza de que estou bem melhor, então vale a pena compartilhar o que fez parte da minha trajetória ao longo desse período “sabático”.

Fiz lá o curso pra licença capacitação. Tinha que fazer. Escolhi algo com proveito real às minhas atribuições. Então dá pra comentar, sem constrangimento (ao contrário de muitos colegas), que gastei algumas horas tentando melhorar em Estatística Inferencial. Esse curso consta na plataforma do Unieducar e atendeu às expectativas. Revisei em alguns pontos e refinei meu entendimento noutros mais sutis. Ponto fraco para a avaliação que foi muito fraca e meio desconexa.

Fiz também fiz vários outros cursos (todos online). No ramo de negócios, estudei Marketing e Análise de Clientes pela Wharton School (os dois cursos disponibilizados no Coursera). Mesmo que tenham sido cursos introdutórios, já fui capaz de entender porque a Universidade da Pensilvânia é a que mais forma bilionários no mundo. Tem muito material além do previsível e que dilata a percepção para o futuro da economia.

Aprofundando lá a estatística, conclui um curso de Econometria pela Erasmus School of Economics (também do Coursera). Aqui foi um trabalho hercúleo, mas que valeu a pena. Esse ramo da economia revela ferramentas muito potentes e úteis em época de Big Data. Domino um pouquinho mais do assunto e já sei garimpar de forma mais eficiente quando precisar de ajuda. Sei que vou precisar disso porque já participei de um trabalho bem impactante que se valeu da matemática + estatística + economia lá no meu serviço público.

Também fiz curso de coach (quatro meses de formação). Percebi algumas falhas no mercado ao constatar haver pessoas que não servem nem pra responder que horas são “dando coach”. Como engenheiro, também vi que era uma área pouco desbravada pelo pessoal de exatas e fiquei curioso. Formular perguntas inteligentes e quantificar/qualificar de forma criativa e estruturada etapas em um processo de forma a colaborar na realização de coisas. Resumi assim o que é ser um coach. Não satisfeito, contratei um coach top fingindo que tinha um monte de problemas, que eu já tinha resolvido na minha própria vida. Fiz isso depois de ter avançado bem no curso (que foi um alto investimento). Resultado? Além de rir internamente em alguns momentos, recomendaria fortemente aos cérebros calejados de exatas a fuçarem esse mundo que por enquanto bonifica massivamente o pessoal de “não exatas”. O resto é conversa…

Por fim, fiz um curso tão diferente quanto útil chamado Superlearner, com o objetivo básico de aprender mais rápido e melhor. Esse foi na plataforma da Udemy (aqui é tudo de cunho mais prático e menos acadêmico). O princípio é que o cérebro é que nem o seu bíceps. Tive evidentes melhorias no sentido de ler mais rápido assimilando mais (uma métrica para referência – passei de 250 para 500 palavras por minuto, com retenção de até 75%). No pain no gain aqui também. Ou seja, é um curso que dá bastante trabalho, exige muita disciplina, mas te faz mentalmente mais potente.

No meio dessa vibe toda de aprendizado eu acabei as aulas da minha primeira pós-graduação (INBEC) e segui com as aulas do meu MBA (IPOG). Os dois aqui são no estilo um final de semana por mês. O resultado líquido acaba sendo 25% a 35% de matérias que realmente agregam e um networking potencialmente maior. Decidi voltar pra sala de aula tradicional para me ajudar em minhas atividades como engenheiro fora do serviço público.

Também continuei trabalhando. Claro. Se minha vida profissional se restringisse somente ao serviço público eu nunca teria tirado férias tão longas.

O gene da docência veio da minha mãe de modo que eu dou aula desde os 14 anos. Comecei no Colégio Militar (na oitava série dando aula para a galera da sétima) pra aumentar a nota do meu comportamento (era um aluno meio agitado). Coloquei então na cabeça que ia dar aula num curso de pós-graduação para me manter aprendendo ensinando os outros.

Daí que eu comecei a dar aula no mesmo IPOG citado ali em cima. Fui aluno e professor na mesma instituição. Relaxa IPOG que tive avaliação acima de 95% e até ganhei um bônus por isso. Além disso, ofereci um curso pro bono em Perícias Judicias para a Empresa Junior de Engenharia Civil da Unb – A Concreta. Fui presidente dessa empresa durante dois anos no meu tempo de faculdade e pra mim é questão de coerência investir naqueles que já se mostram dispostos a fazer algo além de ficar sentado estudando e ralando em um estágio.

Como disse anteriormente, prossegui com minhas atividades de perito judicial e como engenheiro por duas empresas privadas. Atuar no mercado no ramo da Engenharia Diagnóstica e no meio dessa crise é se forçar a melhoria contínua, ou então pedir para sair. O Marketing lá de Wharton me deu boas ideias aqui. A fontes do INBEC e do IPOG também contribuíram com a parte técnica.

Ah! comecei a trabalhar como coach também. Um instigante desafio pra um cara radicado nas exatas. Já tive clientes nas áreas de empreendedorismo, carreira (para universitários), concurso público e atleta de alto desempenho (“alto” tipo nível paraolímpico). Atuar em áreas tão díspares é um dos fundamentos do Superlearner já citado. Fora isso, essa diversidade nos nichos de atuação eu devo essencialmente a habilidades desenvolvidas no meu tempo de Concreta. Vê como as coisas vão se encaixando? especialmente se você tem muitas peças. Estou me divertindo nessa estória de coach e me deterei em fazer o que não vejo ninguém fazendo.

Por falar em diversão, zerei The Witcher III. Não podia esquecer disso. Consumiu um monte de horas, que valeram a pena. O jogo é sensacional. Um milhão de combinações pra você fazer um milhão de missões. Ademais, além de treinar meu inglês, a jogatina também enriqueceu o uso de técnicas de aprendizagem como o memory palace (mais uma vez Superlearner, mais uma vez as peças vão se encontrando).

Viajei! Estaria no rol de perguntas de qualquer um, não é mesmo? No meu planejamento constavam três destinos bem diferentes. Palmelo no interior de Goiás, Nordestão do Brasil (várias cidades) e Costa Leste do Canadá (quatro cidades). Sabe a Luíza que foi pro Canadá? Pois é, eu fui burro com o meu visto e não fui pro Canadá. Esposa, Cunhado e Sogra tiveram que aproveitar essa sem a minha presença. Ainda assim, tive bons momentos nos vinte dias de Nordeste junto com meu sogro e minha esposa. Tive também momentos sensacionais em Palmelo. Tanto é que fui duas vezes nesta cidade de dois mil e quinhentos habitantes que marcou minha vida pela sua pegada espiritual.

Também li um bocado. Nos mais diversos assuntos aprendi um pouquinho mais ao me deleitar com exatos trinta títulos. Destacaria Social Physics, Poder do Pensamento Matemático, Eustáquio, How to think like a Freak, Estado Empreendedor, Economia Compartilhada, Muito Além do Nosso Eu, Tambores de Angola, e O Livro dos Espíritos (esse último releitura). Pra conseguir a média de um livro a cada seis dias utilizei também o recurso de audiolivros por meio dos aplicativos Ubook e Audible, para ouvintes de português e inglês, respectivamente. Nesse campo de escutar para aprender gostei muito de “Hackeando Tudo”, “Wall Street – o livro proibido” e “Pecar e Perdoar”.

Falando em espiritual, que é o mais importante, continuei com as atividades voluntárias de Evangelização na Fraternidade Assistencial Lucas Evangelista -FALE, retomei o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE) pela quinta vez (é…também falho em algumas empreitadas), participei como facilitador de um Encontro de Jovens Espíritas (chama-se Encontro-ME), fiquei mais próximo da minha família, além de outras atividades esparsas e muito gratificantes.

Contei meio que en passant o que me ocupou nesses seis meses (de 11/15 a 04/16) na esperança de contribuir de alguma forma no uso do nosso mais importante recurso: o tempo. Com a miríade de ocupações que eu tive, muitas atividades acabaram se encaixando, inclusive um lego technic de quase mil e quinhentas peças. Afinal, eu estava de férias.

 

4 comentários em “Seis meses de férias das férias

  1. Realmente, o que as pessoas mais falavam era “nossa, 6 meses sem fazer nada”. Mal sabiam elas que é possível sim fazer muito mais coisa além do serviço público. Parabéns pelo esforço e por ser alguém que dá valor ao bem mais precioso que Deus nos deu: o tempo! Aproveitar bem o tempo é uma forma de gratidão a Ele.

  2. Adorei cada palavra, o que dizer? Inspirador. Suas palavras e seu exemplo Rafa inspiram , principalmente espíritos empreendedores como o meu, que as vezes se inquietam ao achar que não há tempo para realizar tudo que tem pra ser realizado, obrigada por compartilhar sua história e por me permitir fazer parte dela. Valeu pela sua orientação como coach, as suas orientações fizeram toda diferença na minha vida e fizeram com que eu me encontrasse como profissional empreendedora que sou, e tranquilizar meu coração. Gratidão!

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