Imagine você tendo um sonho daqueles pra chamar de real. Sonho simples em que és convocado por uma voz desconhecida para receber uma importante informação depositada no fundo de um urna. É só isso por enquanto: você, uma voz estranha e a tal da urna.

Sem mais delongas, você devassa o interior da misteriosa caixa e recolhe uma tirinha de papel dobradinha, no melhor estilo “amigo oculto”.

De repente, você acorda esbaforido, retendo perfeitamente o curto e intenso sonho. Contudo, mostra-se um pouco frustrado porque não sabe qual é a relevante informação ocultada pela dobradura do papel. Não houve tempo para revelar o conteúdo…

Pior que isso: você tem exatamente o mesmo sonho por várias noites em sequencia. Isso, é claro, começa a deixá-lo bastante incomodado.

Em mais uma noite, reconhecendo a mesma voz, já busca com os olhos a urna dentro do automatismo que fora construído. Entretanto, há um convite diferente: “olhe para o quadro”. Uma enorme lousa contém todas as 13 tirinhas que você havia retirado da urna ao longo dos 13 idênticos episódios oníricos, só que agora esticadinhas, mostrando informação que cada uma trazia:

  1. 19:37;
  2. em um churrasco;
  3. em um ano bissexto;
  4. quarta-feira;
  5. logo depois do seu último filho;
  6. saindo de um trabalho voluntário;
  7. lendo um livro;
  8. fazendo alguém sorrir;
  9. em um abraço demorado;
  10. pegando uma chuva;
  11. ouvindo sua música predileta;
  12. dançando
  13. vendo uma mensagem no celular.

Sem conseguir estabelecer qualquer correlação entre as frases você gira o olhar em busca de algo mais e se depara com o dono daquela voz: “Morrerás em uma das treze circunstâncias reveladas na lousa. Aproveite a informação privilegiada”.

Desperta profundamente chocado e toma nota das treze situações de risco. Em vigília, seu primeiro impulso é de total inconformidade já que todos os dias passam por 19:37. Acaba mudando o horário das preces diárias para pouco antes das 20 horas (mas sempre depois de 19:37). Funcionou para aumentar a fé.

Nos churrascos mensais com a turma do futebol, começa a observar tudo, se está muito nublado, nível de sobriedade (de todos), excesso na alimentação, se tem alguma manifestação por perto. Quando alguém chega sorrindo há um desespero interno: “Assim, dobram as chances da minha morte”. Você simplesmente recusa aquele abraço caloroso dos que vão chegando para não abusar da sorte e escapa com alguma desculpa pro banheiro ou para repor alguma bebida.

Fim do carnaval nas cinzas daquele miolo de semana que você passou a não gostar. É quarta-feira. Volta todo molhado da padaria depois de ter sido surpreendido pela chuva. Em um esforço de otimismo, pensa consigo mesmo: “no quadro dizia pegando uma chuva, e eu pelo menos, ainda que ensopado, já estou dentro de casa”. Raios assustavam menos do que gotas de água. Por outro lado, tem ímpetos brecados pela firme lembrança da lista. Assim, desiste logo do livro Ansiedade e emudece o aparelho de som, tornando inaudível Índios, na voz do saudoso Renato Russo.

Prossegue nessa agonia por longos dias até que recebe uma mensagem especial no celular. “Chegou a hora”. Relaxa leitor. O assunto agora é vida nova. Sua esposa estava prestes a dar à luz ao terceiro filho, uma menina. Dia da mais alta periculosidade, pensa. Saindo então do trabalho voluntário que tão bem lhe fazia, vai direto para o hospital. Vem a notícia de que Helena nascera 19:36, quarta-feira, 29 de fevereiro, pesando pouco mais de 3,5 kg. Dá um abraço e beijo de gratidão na esposa e sorri para a filhinha recém chegada. A prece desse dia é um ponto de inflexão, uma mudança de rumo, pois finalmente havia compreendido o privilégio de saber viver a cada segundo. Fez com isso que sua lista crescesse expressivamente ao mesmo tempo em que passou a encará-la sabiamente.

Em geral, não temos esse naipe de informação privilegiada. Nossa lista é então, a cada instante, um listão. Estamos todos numa fila de cegos, surdos e mudos. Você pode enxergar o tempo se esvaindo ou surfar junto com ele, enquanto for possível. Vamos refletir que o pensamento (adiante transcrito) do visionário Steve Jobs sobre a morte vale o tempo todo para todo mundo:

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.

Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.”

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